Revista Espírita — Ano de 1867
Décimo volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1867. 130 artigos catalogados em doze fascículos mensais, confirmando a estimativa da tabela mestra. Dossiê preparatório direto de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (publicada em janeiro de 1868) — papel análogo ao que 1865 desempenhou para [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]]. Quatro artigos do volume são trechos antecipados ou matrizes literais da Gênese: ⭐⭐⭐ “Caracteres da revelação espírita” (set/1867, 44 itens numerados que entram integralmente como cap. I); ⭐⭐ “Do emprego da palavra ‘milagre’” (mai/1867, matriz para cap. XIII); ⭐⭐ “Atmosfera espiritual” (mai/1867, matriz para cap. XIV); ⭐⭐ “O homem antes da história” (Flammarion, dez/1867, com nota editorial explícita de Kardec: “do ponto de vista da Ciência, ele toca nalguns dos pontos fundamentais da doutrina exposta em nossa obra sobre a Gênese”). O volume também abre com a ⭐⭐⭐ menção críptica ao sucessor (“Aos nossos correspondentes”, jan/1867) — “Aquele que for chamado a lhe tomar as rédeas cresce na sombra e revelar-se-á oportunamente, não por sua pretensão a uma supremacia qualquer, mas por seus atos” — continuidade direta da virada testamentária da Alocução de 6/10/1865 (RE nov/1865). Casos paradigmáticos de mediunidade curadora pública (zuavo Jacob, Simonet de Bordéus, pedreiro Grezelle de Illiers, Sra. de Clérambert, caïd Hassan da Tripolitânia, cura Gassner) e a distinção doutrinária médium-curador × médium-médico (out/1867) são a frente prática do volume, em paralelo à sistematização teórica que prepara Gênese.
“Em breve o Espiritismo entrará numa nova fase. […] Aquele que for chamado a lhe tomar as rédeas cresce na sombra e revelar-se-á oportunamente, não por sua pretensão a uma supremacia qualquer, mas por seus atos, que chamarão a atenção de todos. A esta hora ele ignora a si mesmo, e é útil, neste momento, que ainda se mantenha à margem.” — Kardec, “Aos nossos correspondentes” (RE, jan/1867).
Dados bibliográficos
- Autor: allan-kardec
- Período de publicação: janeiro a dezembro de 1867 (12 fascículos mensais)
- Total de artigos: 130 (catalogados no raw)
- Editora original: Bureaux de la Revue Spirite, Paris
- Página-mãe: revista-espirita — visão de conjunto dos 12 volumes (1858–1869)
- Volume anterior: revista-espirita-1865 (1866 ainda não ingerido)
- Texto integral: 1867
- Fonte original online: Kardecpédia — Revista Espírita 1867
- Nível na hierarquia de autoridade: 2 — Kardec complementar.
Posição no projeto editorial
1867 é o ano-redação de A Gênese. A Revista funciona como dossiê preparatório vivo — quatro artigos são trechos antecipados ou matrizes literais do livro que sairá em janeiro de 1868:
| Artigo na Revista | Capítulo de Gênese |
|---|---|
| ”Caracteres da revelação espírita” (set/1867, 44 itens numerados) | Cap. I — Caráter da revelação espírita (transposição literal item por item) |
| “Do emprego da palavra ‘milagre’” (mai/1867) | Cap. XIII — Caracteres dos milagres |
| ”Atmosfera espiritual” (mai/1867) | Cap. XIV — Os fluidos |
| ”O homem antes da história” (Flammarion, dez/1867) — com nota editorial explícita de Kardec | Cap. X — Gênese orgânica / Cap. XI — Gênese espiritual (paleontologia humana) |
Doutrinariamente, 1867 articula três eixos que abrem a fase final da codificação:
- Pré-publicação de Gênese: além dos quatro artigos-matriz acima, o volume opera o trabalho de demarcação terminológica que será fixado no livro — recusa cirúrgica dos vocábulos milagre, sobrenatural, sobre-humano e demônio (RE mai/1867 + fev/1867); recuperação de Mons. Freyssinous, bispo de Hermópolis (RE fev/1867), como autoridade católica anti-”demônio único agente”; sistematização de comunicação com o mundo invisível como terceira grande revelação (Moisés → Cristo → Espiritismo) com método “ao mesmo tempo divino e científico” (RE set/1867, item 13).
- Mediunidade curadora pública e seu enquadramento: o ano vê cinco grandes casos públicos — zuavo Jacob (continuidade de 1866; jul, out, nov/1867), Simonet de Bordéus (ago/1867), pedreiro Grezelle de Illiers (jul/1867), caïd Hassan tripolitano (out/1867), cura Gassner historicamente revisitado (nov/1867) — e a doutrina cristaliza a distinção entre médium-curador e médium-médico (RE out/1867, “Sra. de Clérambert” + “Médicos-médiuns”): o primeiro deve agir gratuitamente (nada lhe custou); o segundo pode exercer profissão remunerada (a ciência médica foi adquirida com trabalho), mas com desinteresse moral absoluto. Tese de futuro: convergência ciência médica + mediunidade.
- Virada testamentária — segundo movimento: continuidade direta da Alocução de 6/10/1865 (RE nov/1865). A menção críptica ao sucessor em jan/1867 — “aquele que nos deve um dia substituir […] cresce na sombra” — reforça o tom anunciado em 1865. “Os trabalhos que nos restam” prosseguem: Gênese completada para janeiro de 1868; Constituição do Espiritismo preparada para o mesmo ano. Kardec morrerá apenas 2 anos e 3 meses após o fechamento deste volume (31/03/1869) sem completar todo o programa.
A frente cultural do volume é dupla e articulada: (a) recuperação de literatos como aliados involuntários — Théophile Gautier (Spirite, continuidade de 1865), Charles Barbara (L’Assassinat du Pont-Rouge, jan/1867), Eug. Bonnemère (Roman de l’Avenir, jul + nov/1867), Jules Doinel (Fernande, ago/1867), Sr. Marteau (poesias, out/1867), Victor Hugo (relato Zelândia, dez/1867), Defoe (Robinson Crusoé, mar + set/1867); (b) recuperação de precursores históricos — Lacordaire (fev/1867), Joseph de Maistre (abr/1867), Benjamin Franklin (dez/1867), Jean Reynaud (revisitado em out + dez/1867), druidas (out/1867).
Marcos cronológicos
| Mês | Marcos do fascículo |
|---|---|
| Janeiro | ⭐⭐⭐ “Aos nossos correspondentes” — menção críptica ao sucessor “que nos deve um dia substituir […] cresce na sombra e revelar-se-á oportunamente, não por sua pretensão a uma supremacia qualquer, mas por seus atos”; alusão a “Os tempos são chegados” (RE out/1866); ⭐⭐ “Olhar retrospectivo - Sobre o movimento espírita” — taxonomia em 15 categorias das opiniões em meio às quais o Espiritismo penetra (fanáticos, crentes satisfeitos, materialistas por sistema, sensualistas, despreocupados, panteístas, deístas, espiritualistas sem sistema, crentes progressistas, crentes não satisfeitos, incrédulos por falta de coisa melhor, livres-pensadores incrédulos vs. crentes, espíritas por intuição), cada uma com proporção de adeptos sobre 10; quadro sociológico programático; recomendação de multiplicação de pequenos grupos íntimos sobre sociedades grandes; ⭐ “Pensamentos espíritas que correm o mundo” — inauguração de série recorrente catalogando ideias espíritas em jornais (E. Texier no Siècle, Pe. V. de São Vicente de Paulo); citação de Charpignon (Physiologie du magnetisme, 1842) sobre o perispírito antecipado pela trindade humana; “Os romances espíritas” — L’Assassinat du Pont-Rouge de Charles Barbara (caso de reencarnação como motivo de remorso); revisão de Gautier, Berthet, Saintine, Balzac (Séraphita), George Sand (Consuelo, Comtesse de Rudolfstadt, Le Drac), De Germonville da Ilha Maurícia, Aurélien Scholl, Charles Barbara; “Variedades”; “Necrologia”; “Notícias bibliográficas”; “Avisos aos Srs. assinantes”. |
| Fevereiro | ⭐⭐ “Livre pensamento e livre consciência” — distinção entre os jornais Libre Pensée (incrédulos, ateus disfarçados) e Libre Conscience (crentes raciocinados); livre-pensamento como liberdade absoluta de escolha das crenças, não como obrigação de descrer; tese-chave: “o Espiritismo estabelece como princípio que antes de crer é preciso compreender”; “As três filhas da bíblia” — análise da obra de Hippolyte Rodrigues sobre fusão de judaísmo, catolicismo e islamismo; ⭐⭐⭐ “Lacordaire e as mesas girantes” — recuperação de carta do abade Henri-Dominique Lacordaire à Sra. Swetchine (29/06/1853, publicada em 1865 na correspondência póstuma): “Vistes girar e ouvistes falar das mesas? Desdenhei vê-las girar, como uma coisa muito simples, mas ouvi e fiz que elas falassem”; comunicação pós-morte de Lacordaire na SPEE em 18/01/1867 (médium Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo); ⭐⭐ “Refutação da intervenção do demônio” — recuperação de Mons. Freyssinous, bispo de Hermópolis (Conférences sur la religion, 1825), que refuta o “demônio único agente” nos próprios termos eclesiásticos: “Se Jesus Cristo tivesse operado seus milagres pela virtude do demônio, este teria trabalhado para destruir o seu império”; continuidade direta da peça “Padre Dégenettes” (RE ago/1865); ⭐ “Eugénie Colombe. Precocidade fenomenal” — caso da menina de Toulon (3 anos, sabe ler/escrever, gramática, geografia, história sagrada) — explicada por lembrança de existência anterior; “Tom, o cego, músico natural” — escravo cego americano, virtuose musical; teoria da reencarnação como expiação racial; “Suicídios dos animais”; “Poesias espíritas”; “Dissertações espíritas - As três causas principais das doenças, A clareza, Comunicação providencial dos Espíritos”; “Notícias bibliográficas”. |
| Março | ⭐⭐ “A homeopatia nas moléstias morais” — refutação metodológica da tese de que medicamentos homeopáticos podem corrigir vícios morais (ódio, ciúme, orgulho); doutrina-chave: “as aptidões do Espírito são sempre uma causa, e o estado dos órgãos um efeito” — não se age sobre o ser espiritual senão por meios espirituais; reafirmação anti-materialista; ⭐ “Exploração das ideias espíritas” — análise de jornais que se apropriam de ideias espíritas sem nomeá-las (Sr. Ponson du Terrail, Mon Village; Taxile Delord, Conto de Natal no Avenir National; drama Maxwel de Jules Barbier no Théâtre de l’Ambigu — sonambulismo como recurso narrativo contra a pena de morte); ⭐⭐ “Robinson Crusoé espírita” — descoberta de passagens de Defoe sobre vozes interiores, aparições verídicas, premonição mediúnica em sonho — “por que secreta comunicação dos Espíritos invisíveis” — texto canônico da literatura infantil revelado como precursor; “Tolerância e caridade” — carta do novo arcebispo de Argel, Mons. Lavigerie, com dádiva às vítimas do terremoto sem distinção de raça/culto — contraste com o predecessor (RE 1863); ⭐⭐ “Lincoln e o seu matador” — comunicação americana publicada no Banner of Light de Boston (médium de Ravenswood); Abraham Lincoln + John Wilkes Booth pós-morte: Lincoln recebe Booth com bondade; Booth fica torturado pela ausência de vingança; “Sempre em presença de sua vítima e dela não receber senão manifestações de bondade, eis o seu estado atual e sua punição”; ⭐ “A Liga do Ensino” — primeira menção do projeto de Jean Macé (movimento popular de instrução pública neutra, sem direção sectária); “Poesias espíritas”; “Dissertações espíritas - Comunicação coletiva, Mangin o charlatão, A solidaridade, Tudo vem a seu tempo, Respeito devido às crenças passadas, A comédia humana”; “Lumen - Relato Extra-terreno” — bibliografia de obra científico-espírita. |
| Abril | ⭐⭐ “Galileu” (1ª parte) — análise do drama em versos de Ponsard recém-encenado em Paris; Galileu como precursor metodológico do Espiritismo: “as duas poderosas alavancas que derrubaram seus preconceitos sobre sua origem e seu destino” (Astronomia e Geologia preparam o terreno para o Espiritismo); ⭐⭐ “Do Espírito profético” — recuperação de Joseph de Maistre (Soirées de Saint-Pétersbourg, 1821, conversa XI): “devemos estar preparados para um acontecimento imenso na ordem divina […]; oráculos terríveis, aliás, anunciam que os tempos são chegados”; “a Doutrina dos Espíritos, e em particular a do espírito profético, é inteiramente plausível em si mesma, e além disto a mais bem sustentada pela mais universal e mais imponente tradição que já existiu”; previsão da terceira explosão da onipotente bondade depois de Moisés e Cristo; ⭐⭐⭐ “Comunicação de Joseph de Maistre” (SPEE, 22/03/1867, médium Sr. Desliens) — comunicação pós-morte do conde, identificando-se com seu próprio “espírito profético” da obra de 1821: “Eu vi a terra prometida, mas não pude nela penetrar em vida”; “O espírito profético abrasa o mundo inteiro com seus eflúvios regeneradores”; promete colaborar com a SPEE como inspirador; “A Liga do Ensino” (2º artigo) — carta de Jean Macé esclarecendo o caráter neutro do projeto (que Kardec havia tratado com reserva no número anterior); ⭐ “Manifestações espontâneas” — Moinho de Vicq-sur-Nahon e Manifestações de Menilmontant; “Dissertações espíritas”; “Bibliografia”; “Carta de um espiritista”. |
| Maio | ⭐⭐ “Atmosfera espiritual” — texto-matriz para Gênese cap. XIV: tese dos fluidos perispiritais coletivos — “o ar pode ser saturado desses fluidos” — assembleias produzem atmosferas salubres ou insalubres conforme os pensamentos dominantes; higiene moral pelo Espiritismo: “o pensamento atrai pensamentos da mesma natureza; os fluidos atraem fluidos similares”; ⭐⭐⭐ “Do emprego da palavra ‘milagre’” — texto-matriz para Gênese cap. XIII: resposta ao Sr. Philaléthès do La Vérité de Lyon, que havia sugerido reabilitação etimológica do vocábulo; Kardec defende a recusa terminológica em perfeito conhecimento de causa: “é evidente que se tivéssemos qualificado os fenômenos espíritas de miraculosos, o público ter-se-ia enganado quanto ao seu verdadeiro caráter”; recusa também sobrenatural, sobre-humano e demônio — “vestir o Espiritismo com roupas velhas teria sido uma inabilidade”; ⭐ “Revista retrospectiva das ideias espíritas - Punição do ateu” — recuperação de obra de Ans. Caillot (1808, Voyage pittoresque au Champ de Repos) com diálogo entre o autor e um espectro ateu — descrição da pena pós-morte por ausência da ideia de Deus, idêntica à que se conhece hoje pelos relatos espíritas; ⭐⭐ “Uma expiação terrestre - O jovem François” — caso paradigmático para [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]]: menino de 12 anos, paralisia + hidropisia + chagas gangrenadas durante 9 anos; antipatia por irmãzinha (3 anos mais nova) sem causa aparente; comunicação pós-morte (médium da família) confessa: “matei lentamente, fazendo sofrer um ser que eu detestava” — irmã era vítima reencarnada de assassinato anterior; doutrina da solidariedade entre existências sucessivas aplicada a sofrimento infantil; ⭐ “Galileu” (continuação) — fragmentos do drama de Ponsard; ⭐ “Lumen” — análise da obra de Camille Flammarion (relatos extra-terrenos); “Dissertações espíritas - A vida espiritual, Provas terrestres dos homens em missão, O gênio”. |
| Junho | ⭐⭐ “Emancipação da mulher nos Estados Unidos” — síntese do movimento internacional pela equiparação política e jurídica das mulheres (Srta. Lord pleiteia consulado, Wisconsin concede sufrágio, Sr. Mill fala na Câmara dos Comuns inglesa); doutrina espírita sobre igualdade dos sexos: “o Espiritismo é a única doutrina que estabelece os direitos da mulher sobre a própria Natureza, provando a identidade do ser espiritual nos dois sexos”; comunicação programática (SPEE, 10/05/1867, médium Sr. Morin em sonambulismo espontâneo): “Se vos désseis conta que os Espíritos não tem sexo; que o que hoje é homem pode ser mulher amanhã […] deveríeis regozijar-vos em vez de vos afligirdes com a emancipação da mulher”; ⭐ “A homeopatia nas moléstias morais” (continuação) — debate prolongado com o Dr. Charles Grégory, espírita e homeopata convicto, sobre se as 200ª/600ª diluições homeopáticas podem agir “espiritualmente” sobre o caráter; Kardec mantém a refutação metodológica de março; “O sentido Espiritual” — Erasto sobre os 7 sentidos; o “sexto sentido” como sentido espiritual (sonambulismo + mediunidade como variantes da mesma faculdade perispiritual); ⭐ “Grupo curador de Marmande” — continuidade do trabalho do Sr. Dombre (RE 1864, 1865); ⭐ “Nova sociedade espírita de Bordeaux” — reconstituição da Sociedade Bordelesa após dissensões; “Necrologia”; “O conde de Ourches” — desencarnação de figura espiritualista; “Dissertações espíritas”; “Bibliografia - União espírita de Bordeaux, Progresso Espiritualista, Pesquisas sobre a causa do ateísmo, O romance do futuro (E. Bonnemère)“. |
| Julho | ⭐⭐ “Curta excursão espírita” — Kardec viaja a Bordeaux para o banquete de Pentecostes da Sociedade Bordelesa reconstituída (~120 convivas, 4× mais que o ano anterior); passa por Tours e Orléans; constata: (a) diminuição gradativa das prevenções; (b) desinteresse pelos efeitos físicos extraordinários, predomínio dos médiuns escreventes raciocinados sobre os de efeitos físicos; (c) assimilação rápida pelas classes populares — “não é necessário ser sábio para ter sentimento e raciocínio”; ⭐⭐⭐ “A lei e os médiuns curadores” — análise jurídica do caso do Sr. P… (ex-cozinheiro autodidata, médium curador parisiense detido pela polícia em 1867); doutrina jurídica fixada: “não há nenhum poder no mundo que possa opor-se ao exercício da mediunidade ou magnetização curadora, na verdadeira acepção da palavra” — desde que haja completo desinteresse material; menção do zuavo Jacob como exceção (a interdição era disciplina militar, não criminal); ⭐⭐ “Illiers e os espíritas” — perseguição violenta ao pedreiro Grezelle de La Certellerie (apelidada La Sorcellerie pelos detratores) — apedrejado por garotos em Illiers; campanha do Journal de Chartres contra os espíritas locais; investigação independente do Sr. Quômes d’Arras: encontra família tranquila e reuniões edificantes (com prece de joelhos, leitura do ESE); modelo de reuniões íntimas em pequeno grupo; ⭐ “Epidemia na Ilha Maurícia”; “Variedades”; “Poesia Espírita”; “Notícias bibliográficas”; “Dissertações espíritas”. |
| Agosto | ⭐⭐ “Fernande” — análise da novela espírita de Jules Doinel d’Aurillac (folhetim no Moniteur du Cantal, 1866); elogio do tom moral mas crítica de dois pontos doutrinários: (a) negação das existências anteriores (Doinel admite só as posteriores — contradição com a justiça divina); (b) tese de que o Espírito perfeito esquece os afetos terrenos (“a felicidade eterna assim concebida quase não seria mais invejável que a perpétua contemplação”); reafirmação metodológica do controle universal: “Foi a universalidade do ensino, aliás sancionada pela lógica, que fez e que completará a Doutrina Espírita” — em 1.000 centros, 990 dizem o mesmo; ⭐⭐ “Simonet” — médium curador de Bordéus (marceneiro do Château du Bel-Air); até mil consultas diárias; processo dos hospedeiros (irmãos Barbier) por exploração comercial — Simonet apenas testemunha, não condenado; “em Allan Kardec aprendi” (declaração de Simonet ao tribunal); ⭐⭐ “Entrada dos incrédulos no mundo dos Espíritos - Doutor Claudius” + “Um operário de Marselha” — comunicações pós-morte de materialistas em estado de perplexidade; padrão fixado em RE 1862 retomado; “Senhora Walker, doutora em cirurgia”; “O Iman, grande esmoler do Sultão”; “Jean Ryzak, a força do remorso”; ⭐⭐ “Plano de campanha - Era nova - Considerações sobre o sonambulismo espontâneo” (Dissertação) — comunicação programática que articula a fase atual ao plano divino de “era nova”; “Os Espiões”; “A responsabilidade moral”; “Reclamação ao jornal La Marionnette”. |
| Setembro | ⭐⭐⭐ “Caracteres da revelação espírita” — texto-matriz LITERAL do cap. I de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] (1868), em 44 itens numerados. Define: (1) revelação como descoberta de qualquer verdade (cientistas como reveladores; homens de gênio como missionários); (2) três grandes revelações — Moisés (Deus único, lei do Sinai, Decálogo), Cristo (vida futura, Deus de amor, fraternidade), Espiritismo como terceira (mundo invisível, leis dos fluidos, perispírito, reencarnação, vida futura concreta, fraternidade pelas existências sucessivas); (3) caráter dual da revelação espírita — “a sua fonte é divina; a iniciativa pertence aos Espíritos e a elaboração é produto do trabalho do homem” (item 13); (4) método experimental (item 14): “Não foram os fatos que vieram de súbito confirmar a teoria, mas a teoria que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos”; (5) Espiritismo realiza a promessa do Consolador (item 42); (6) o Cristo também não disse tudo — anunciou que o Espírito de Verdade “restabelecerá todas as coisas” (item 26); (7) consequências morais do desamparo materialista vs. confiança progressiva (item 37); (8) pecado original e virtude original explicados pela preexistência (item 38); (9) propriedades do perispírito explicam dupla vista, sonambulismo, êxtase, presciência, aparições (item 40); (10) destruição do império do maravilhoso e do sobrenatural pela demonstração das leis (item 40, conexão direta com o cap. XIII de Gênese e o art. de mai/1867 sobre “milagre”). Texto pré-publicado para colher feedback dos leitores antes da edição definitiva no livro; ⭐ “Robinson Crusoé espírita” (continuação) — segundas passagens; “Notícia bibliográfica”. |
| Outubro | ⭐⭐ “O Espiritismo em toda parte” (a propósito das poesias do Sr. Marteau) — inauguração formal da série recorrente que cataloga “ideias espíritas” em fontes não-espíritas; análise do livro de Amédée Marteau (Espoirs et Souvenirs) sobre a transmigração das almas em corpos celestes — recuperação da doutrina druídica sobre destinos da alma como antecipação do Espiritismo (Jean Reynaud, Lamennais, Lamartine, Hugo, Maxime Ducamp, Flammarion como cadeia de precursores modernos); ⭐⭐ “Senhora Condessa de Clérambert - Médium médico” — caso paradigmático histórico: Adèle de Clérambert (Saint-Symphorien-sur-Coise, Loire); estudou Medicina por gosto natural inato (memória de existência anterior — “eu tinha sido médico”); curou epilépticos e doentes graves por correspondência, sem ver o paciente; faculdade subordinada à exigência do guia espiritual de desinteresse moral e material absoluto; comunicação pós-morte (SPEE, 5/04/1867, médium Sr. Desliens); ⭐⭐⭐ “Médicos - médiuns” — distinção doutrinária fixada: o médium-curador age sem custo (faculdade gratuita, dever de gratuidade); o médium-médico pode exercer profissão remunerada (a ciência médica foi conquista pessoal trabalhosa) — “como o saber humano os Espíritos juntam seu concurso pelo dom de uma aptidão mediúnica, é para o médico um meio a mais para se esclarecer”; o desinteresse moral continua absoluto em ambos; tese de futuro: “haja médicos-médiuns como há médiuns-médicos”; ⭐ “O Caid Hassan, curador de tripolitano ou a benção do sangue” — caso etnográfico do Sr. Barão de Krafft (Tour du monde); negro de Ouadaï, governador da tribo dos Ouerchéfâna, cura crianças com dartros pela imposição das mãos com isqueiro de sílex; faculdade real disfarçada de superstição local (“a benção do sangue nas mãos”); ⭐ “O zuavo Jacob” — continuidade do caso Henri Jacob; “Dissertações espíritas - I, II, III, Os adeuses”. |
| Novembro | ⭐⭐ “Impressões de um médium inconsciente a propósito do romance do futuro” — carta-relato de Eug. Bonnemère sobre seu jovem médium bretão de 18.000 páginas (autor real do Roman de l’Avenir); mediunidade inconsciente compósita (escrevente + auditiva + falante + médica + intuitiva); descrição em primeira pessoa do estado de “mutismo” durante o trabalho mediúnico; “Eu não sou um homem, mas uma alma que desperta ao grito do sofrimento”; cautela de Kardec sobre uso comercial das receitas medicinais (bichos da seda, cólera) — “tristes decepções seriam a sua consequência inevitável”; ⭐⭐ “O cura Gassner - Médium curador” — recuperação do caso histórico do Pe. Jean-Joseph Gassner (1727–1779), padre suábio; após 15 anos de vida solitária revelou-se como curador por imposição das mãos; afluência massiva (Wolfegg, Weingarten, Constança, Ratisbona, Sulzbach, Elwangen); enquadramento eclesiástico de “exorcismo” — “o poder que a ordenação confere a todos os padres de exorcizar”; mas Gassner declarava jamais fazer milagres e classificava as doenças em três categorias (orgânicas, obsessivas, mistas); paralelo explícito com zuavo Jacob e príncipe de Hohenlohe; ⭐ “Pressentimentos e prognóticos” — anedotas de Maria Teresa, Maria Antonieta, Luís XVI, com Gassner predizendo “há cruzes para todos os ombros” antes do casamento de Maria Antonieta (1770); ⭐ “O zuavo Jacob” — continuidade; “Notícias bibliográficas”; “Aviso”. |
| Dezembro | ⭐⭐⭐ “O homem antes da história” — artigo do próprio Camille Flammarion sobre antropologia pré-histórica (extraído dos artigos científicos no Siècle): cidades lacustres da Suíça (1853), grutas funerárias de Aurignac (1852), Idade da Pedra dinamarquesa, alimentação onívora dos primitivos, túmulos pré-históricos como câmaras mortuárias agachadas (atitude fetal); nota editorial explícita de Kardec: “Julgamos dever reproduzi-lo […] porque, do ponto de vista da Ciência, ele toca nalguns dos pontos fundamentais da doutrina exposta em nossa obra sobre a Gênese” — confirmação direta de que Gênese já estava em redação avançada em dezembro de 1867; ⭐⭐ “Um ressurrecto contrariado” — relato de Victor Hugo na Zelândia (jantar oficial em Ziéricsée, La Liberté 6/11/1867): advogado tirado do fosso após uma hora submerso, ressuscita gritando “Que foi que fizestes? Eu estava tão bem onde estava!”; Hugo articula tese espírita sobre o estado flutuante da alma na agonia: “a alma pode ficar um certo tempo acima do corpo, em estado flutuante, já não sendo mais prisioneira e ainda não estando liberta”; Kardec: “Dir-se-ia tirada textualmente da Doutrina”; ⭐ “Carta de Franklin a Mrs. Jone Mecone - Sobre a preexistência” (dez/1770, recuperada em Magasin pittoresque out/1867) — Benjamin Franklin discute a doutrina da Sra. Hive (1725, Salter’s Hall) de que “esta Terra é o verdadeiro inferno, o lugar de punição para os Espíritos que pecaram num mundo melhor” — precursor da reencarnação; lembra epitáfio que Franklin escreveu para si próprio (citado em RE ago/1865); “Reflexo da preexistência” — Jean Reynaud sobre a memória latente da alma; ⭐⭐ “Jeanne D’Arc e seus comentadores” — análise extensa de N. de Wailly (Bibliothèque de l’École de Chartres) sobre as obras de Wallon e Quicherat; Joana d’Arc como modelo eminente de mediunidade auditiva, visual e profética: vozes (São Miguel, Santa Catarina, Santa Margarida), discernimento de pensamentos secretos (segredo de Carlos VII), visão à distância (espada de Sainte-Catherine de Fierbois), predição (ferimento em Orléans confirmado por carta flamenga prévia); Kardec: “Joana d’Arc não é um problema nem um mistério para os espíritas. É um modelo eminente de quase todas as faculdades mediúnicas”; promessa de estudo próprio; “A jovem camponesa de Monin” — caso de aparição em Basses-Pyrénées; “Algumas palavras à revista espírita” + “Resposta”; “O Abade de Saint-Pierre” — outro precursor; “Dissertações espíritas - Erros científicos, A exposição”. |
Linhas-de-força do volume
1. “Caracteres da revelação espírita” (set/1867) — matriz literal de Gênese cap. I
O artigo de set/1867, em 44 itens numerados, é o mais importante texto doutrinário do volume. Constitui pré-publicação na Revista do cap. I integral de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] que sairá em janeiro de 1868. Não é antecipação parcial (como fora “Onde é o Céu?” para C&I em mar/1865), mas transposição literal item por item — Kardec submete o texto ao controle universal da rede espírita antes da edição definitiva.
A peça articula a tese das três grandes revelações:
“É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado como a terceira grande revelação. […] Como profeta, Moisés revelou aos homens o conhecimento de um Deus único […]. O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino […] acrescentou à revelação da vida futura […]. O Espiritismo […] partindo do Cristo, parte das próprias palavras do Cristo, assim como o Cristo partiu das palavras de Moisés, ele é uma consequência direta de sua doutrina.” (RE set/1867, itens 20–30)
E define o caráter dual da revelação espírita (item 13):
“O que caracteriza a revelação espírita é que a sua fonte é divina; que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a elaboração é produto do trabalho do homem.”
Articulação completa com tres-revelacoes. A doutrina entra em Gênese praticamente sem alterações — apenas pequenos retoques estilísticos.
2. Polêmica do “milagre” (mai/1867) — matriz de Gênese cap. XIII
“Do emprego da palavra ‘milagre’” é resposta extensa ao Sr. Philaléthès, redator do jornal La Vérité de Lyon (16/09/1866), que havia censurado Kardec por “inadvertência” em recusar o vocábulo milagre. Kardec responde “em perfeito conhecimento de causa e com intenção”:
“É bem mais simples, e sobretudo mais lógico, dizer claramente: Não, o Espiritismo não faz milagres. Dessa maneira, não há engano nem falsa interpretação. […] O Espiritismo, pela revelação de novas leis, vem restringir ainda o domínio do maravilhoso; dizemos mais: dá-lhe o último golpe.”
A peça também recusa sobrenatural (“insensatez do ponto de vista do Espiritismo”), sobre-humano (“os Espíritos não deixam de pertencer à humanidade”) e demônio (“vestir o Espiritismo com roupas velhas teria sido uma inabilidade”). Texto que entra em Gênese cap. XIII (“Caracteres dos milagres”) e XV (“Os milagres do Evangelho”). Conexão direta com maravilhoso-e-sobrenatural.
3. “Atmosfera espiritual” (mai/1867) — matriz de Gênese cap. XIV
O artigo de mai/1867 sistematiza a teoria dos fluidos perispiritais coletivos que entra no cap. XIV de Gênese:
“O ar pode ser saturado desses fluidos […]. Quem quer que traga consigo pensamentos de ódio, de inveja, de ciúme, de orgulho […] espalha em torno de si eflúvios fluídicos malsãos que reagem sobre os que o cercam.”
Doutrina de higiene moral espírita: o pensamento atrai pensamentos da mesma natureza, os fluidos atraem fluidos similares, e cada indivíduo traz consigo um cortejo de Espíritos simpáticos. Conexão com fluidos, perispirito.
4. Caso zuavo Jacob e a frente da mediunidade curadora pública
O zuavo Henri Jacob é figura central do volume — aparece em três fascículos: jul/1867 (debate jurídico em “A lei e os médiuns curadores”), out/1867 (“O zuavo Jacob”) e nov/1867 (“O zuavo Jacob”). Caso pivotal da mediunidade curadora pública com afluência massiva, atrito com a hierarquia militar (interdição disciplinar) e código médico francês.
O ano também documenta outros cinco grandes casos públicos que repetem o padrão:
- Simonet (Bordéus, marceneiro do Château du Bel-Air) — mil consultas diárias; processo contra os hospedeiros (irmãos Barbier) por exploração; ele próprio apenas testemunha (RE ago/1867).
- Pedreiro Grezelle de La Certellerie (Eure-et-Loir) — apedrejado em Illiers; investigação independente do Sr. Quômes d’Arras restaura a verdade dos fatos (RE jul/1867).
- Sr. P… (ex-cozinheiro autodidata, Paris) — detido pela polícia, denunciado por duas damas do bairro Saint-Germain (RE jul/1867).
- Caïd Hassan (Tripolitânia) — antigo governador, cura crianças por imposição das mãos com fórmula muçulmana (“benção do sangue”) (RE out/1867).
- Cura Gassner (1727–1779, recuperação histórica) — paralelo explícito com Jacob (RE nov/1867).
Kardec fixa em “A lei e os médiuns curadores” (jul/1867) a doutrina jurídica:
“Não há nenhum poder no mundo que possa opor-se ao exercício da mediunidade ou magnetização curadora, na verdadeira acepção da palavra”
— desde que haja completo desinteresse material (sem cobrança nem remuneração disfarçada).
5. Distinção médium-curador × médium-médico (out/1867)
A dupla “Sra. de Clérambert / Médicos-médiuns” (out/1867) cristaliza a distinção doutrinária entre dois regimes mediúnicos correlatos:
- Médium-curador: a faculdade nada lhe custou, é gratuita; deve agir gratuitamente. Subsistência por trabalho ordinário separado.
- Médium-médico: a ciência médica foi conquista pessoal trabalhosa; pode exercer profissão remunerada. Os Espíritos juntam ao seu saber humano “um meio a mais para se esclarecer”.
Em ambos, o desinteresse moral continua absoluto. Tese de futuro: convergência da medicina com a mediunidade — “haja médicos-médiuns como há médiuns-médicos”. Caso da Sra. Adèle de Clérambert como modelo histórico de médium-médica (estudou Medicina por gosto inato, mas atendeu sempre gratuitamente). Conexão com mediunidade-de-cura.
6. Recuperação anti-eclesiástica de Lacordaire e Mons. Freyssinous
A frente anti-eclesiástica do volume opera por recuperação cirúrgica de autoridades católicas internas:
- Henri-Dominique Lacordaire (RE fev/1867) — dominicano restaurador da Ordem dos Pregadores na França; carta à Sra. Swetchine de 29/06/1853 reconhece a realidade do fenômeno das mesas falantes (“ouvi e fiz que elas falassem […] Em todos os tempos houve modos mais ou menos bizarros para se comunicar com os Espíritos”). Comunicação pós-morte na SPEE em 18/01/1867 pede a publicação na Revista — Kardec aproveita para mostrar que “pode-se ter senso comum e crer nos Espíritos”.
- Mons. Freyssinous, bispo de Hermópolis (RE fev/1867) — Conférences sur la religion (1825): refuta o argumento do “demônio único agente” nos próprios termos do Cristo: “Se Jesus Cristo tivesse operado seus milagres pela virtude do demônio, este teria trabalhado para destruir o seu império”. Continuidade direta da peça contra o “demônio único” (RE ago/1865, Padre Dégenettes).
A política editorial fixada é clara: mostrar que membros sérios do clero católico não professam a tese demoníaca absoluta que os bispos perseguidores invocam.
7. “Olhar retrospectivo” (jan/1867) — taxonomia em 15 categorias
Quadro sociológico programático que classifica as opiniões em meio às quais o Espiritismo penetra. Cada categoria recebe uma proporção de adeptos sobre 10:
| # | Categoria | Adeptos |
|---|---|---|
| 1 | Fanáticos de cultos | 0 |
| 2 | Crentes satisfeitos (sem fanatismo) | 0 |
| 3 | Crentes ambiciosos (clero interessado) | 0 |
| 4 | Crentes pela forma | 0 |
| 5 | Materialistas por sistema | 0 |
| 6 | Sensualistas | 0 |
| 7 | Despreocupados | 0 |
| 8 | Panteístas | 1 |
| 9 | Deístas | 3 |
| 10 | Espiritualistas sem sistema | 5 |
| 11 | Crentes progressistas | 5 |
| 12 | Crentes não satisfeitos | 8 |
| 13 | Incrédulos por falta de coisa melhor | 9 |
| 14 | Livres-pensadores crentes | 9 |
| 15 | Espíritas por intuição | 10 |
A “metade refratária” (categorias 1–7) é audaciosa e agressiva; a outra metade (8–15) é o campo a explorar. Quadro retomado em “O Espiritismo em toda parte” (out/1867) e em diversos artigos do tipo “Pensamentos espíritas que correm o mundo” (jan/1867 + recorrentes).
8. Virada testamentária — segundo movimento
A menção críptica ao sucessor em “Aos nossos correspondentes” (jan/1867) é continuidade direta do tom testamentário-profético da Alocução de 6/10/1865 (RE nov/1865). Onde a Alocução anunciava “em breve o Espiritismo entrará numa nova fase”, jan/1867 já fala em substituição:
“Aquele que for chamado a lhe tomar as rédeas cresce na sombra e revelar-se-á oportunamente, não por sua pretensão a uma supremacia qualquer, mas por seus atos, que chamarão a atenção de todos. A esta hora ele ignora a si mesmo, e é útil, neste momento, que ainda se mantenha à margem.”
A passagem ganha caráter de presságio quando lida pós-31/03/1869 (morte de Kardec). Os “trabalhos que restam” estão no centro do volume: A Gênese (em redação avançada — confirmada pela nota a Flammarion em dez/1867; sairá em janeiro de 1868) e a Constituição do Espiritismo (1868).
A SPEE em 1867 — décimo ano social
- Sede definitiva na rue Sainte-Anne, 59 (mantida).
- Reuniões íntimas multiplicadas: a transformação assinalada em 1865 (fragmentação de grandes centros em pequenos grupos íntimos) consolida-se. RE jan/1867 destaca o aumento de reuniões íntimas em Paris e nas principais cidades.
- Excursão a Bordeaux (junho/1867, banquete de Pentecostes da Sociedade Bordelesa reconstituída — ~120 convivas, vindos de Toulouse, Marmande, Villeneuve, Libourne, Niort, Blaye, Carcassonne).
- Comunicações paradigmáticas na SPEE em 1867: Lacordaire (18/01/1867, médium Sr. Morin); Sra. de Clérambert (5/04/1867, médium Sr. Desliens); Joseph de Maistre (22/03/1867, médium Sr. Desliens); Doutor Claudius (médium Sr. Morin em sonambulismo espontâneo, ago/1867); Caïd Hassan (23/02/1867, médium Sr. Desliens).
- Continuidade da rede: Lyon, Bordeaux (reconstituída), Marmande (Sr. Dombre — grupo curador), Bélgica, Espanha, Brasil, Tripolitânia (caïd Hassan), Ilha Maurícia (epidemia, jul/1867), Estados Unidos (Lincoln/Booth, mar/1867; emancipação da mulher, jun/1867).
Comunicantes recorrentes
- jesus — referência moral central; tema constante em “Caracteres da revelação espírita”.
- São Luís — guia e presidente espiritual da SPEE.
- erasto — comunicação sobre os 7 sentidos (RE jun/1867).
- Espírito de Verdade — citado em “Caracteres da revelação espírita” item 42 como o “Consolador”.
- Henri-Dominique Lacordaire — comunicação pós-morte em 18/01/1867 (médium Sr. Morin).
- Joseph de Maistre — comunicação pós-morte em 22/03/1867 (médium Sr. Desliens), identificando-se com o “espírito profético” de sua obra de 1821.
- Adèle de Clérambert — comunicação pós-morte em 5/04/1867 (médium Sr. Desliens).
- Mons. Freyssinous, bispo de Hermópolis — citado em RE fev/1867 (não comunicação, autoridade textual).
- Doutor Claudius — médico materialista falecido, comunicação em sonambulismo espontâneo (RE ago/1867).
- Abraham Lincoln + John Wilkes Booth — comunicações americanas (médium de Ravenswood, Banner of Light de Boston, RE mar/1867).
- Espírito de Fernande — caso paradigmático da novela de Jules Doinel (RE ago/1867).
- Espírito do jovem François — caso de expiação terrestre por homicídio em vida anterior (RE mai/1867).
- Cura Gassner — citado como autoridade histórica, não comunicação (RE nov/1867).
Conceitos tratados
- Pré-Gênese:
- tres-revelacoes (matriz literal “Caracteres da revelação espírita”, set/1867)
- maravilhoso-e-sobrenatural (“Do emprego da palavra ‘milagre’”, mai/1867)
- fluidos e perispirito (“Atmosfera espiritual”, mai/1867)
- Mediunidade:
- mediunidade-de-cura (zuavo Jacob, Simonet, Grezelle, caïd Hassan, Sra. de Clérambert, cura Gassner, Sr. P…)
- mediunidade (médium inconsciente — Bonnemère/jovem bretão, RE nov/1867)
- identidade-dos-espiritos (Joana d’Arc — predições verificadas, dez/1867)
- Reencarnação e expiação:
- reencarnacao (Eugénie Colombe, Tom o Cego — fev/1867; Franklin — dez/1867)
- provas-e-expiacoes (jovem François — mai/1867)
- lei-de-causa-e-efeito (Lincoln/Booth — mar/1867)
- Moral e prática:
- livre-arbitrio (“Livre pensamento e livre consciência”, fev/1867)
- caridade (carta do arcebispo de Argel, mar/1867)
- Cosmologia e ciência:
- pluralidade-dos-mundos-habitados (Galileu — abr–mai/1867; Marteau — out/1867; Flammarion — dez/1867)
- Anti-eclesiástica metodológica:
- Recuperação de Mons. Freyssinous contra “demônio único agente” (fev/1867).
- Lacordaire publicamente reconhecendo o fenômeno mediúnico (fev/1867).
Personalidades citadas
- allan-kardec — diretor; menção críptica ao sucessor (jan); excursão a Bordeaux/Tours/Orléans (jul); redação de Gênese em curso.
- jesus — referência moral central, sobretudo em “Caracteres da revelação espírita”.
- lacordaire — Henri-Dominique Lacordaire (1802–1861), dominicano francês; carta de 1853 e comunicação pós-morte em 18/01/1867.
- Joseph de Maistre (1753–1821) — conde sardo, escritor católico; Soirées de Saint-Pétersbourg (1821) e comunicação pós-morte em 22/03/1867.
- condessa-de-clerambert — Adèle de Clérambert; médium-médica histórica de Saint-Symphorien-sur-Coise (Loire); comunicação pós-morte em 5/04/1867.
- zuavo-jacob — Henri Jacob; soldado-médium curador militar; jul + out + nov/1867.
- joana-darc — análise renovada de Wallon e Quicherat por N. de Wailly (RE dez/1867); modelo de mediunidade.
- victor-hugo — relato Zelândia (advogado holandês ressuscitado), Hugo articula tese espírita (RE dez/1867).
- camille-flammarion — artigo de sua autoria “O homem antes da história” (RE dez/1867); preparação direta de Gênese.
- Galileu Galilei — análise do drama de Ponsard como precursor metodológico do Espiritismo (RE abr–mai/1867).
- Benjamin Franklin — carta de 1770 sobre preexistência (RE dez/1867); precursor moderno da reencarnação.
- Sra. Hive — viúva inglesa autora de discurso em Salter’s Hall (1725) sobre a Terra como “verdadeiro inferno” (RE dez/1867).
- Cura Jean-Joseph Gassner (1727–1779) — caso histórico de mediunidade curadora suábia (RE nov/1867); paralelo explícito com Hohenlohe e zuavo Jacob.
- Mons. Freyssinous — bispo de Hermópolis; Conférences sur la religion (1825) (RE fev/1867).
- Mons. Lavigerie — bispo de Nancy, novo arcebispo de Argel (carta de 15/01/1867 contrastando com seu predecessor) (RE mar/1867).
- Charpignon — médico e magnetizador; Physiologie du magnetisme (1842) — antecipação do perispírito (RE jan/1867).
- Théophile Gautier — Spirite (continuidade de 1865) (RE jan/1867).
- Charles Barbara — L’Assassinat du Pont-Rouge (caso de reencarnação como remorso) (RE jan/1867).
- Eug. Bonnemère — Roman de l’Avenir (RE jun + jul + nov/1867); na verdade autor é seu jovem médium bretão.
- Jules Doinel d’Aurillac — Fernande (novela espírita) (RE ago/1867).
- Amédée Marteau — Espoirs et Souvenirs (poesias druído-espíritas) (RE out/1867).
- Sr. Mill (John Stuart) — discurso na Câmara dos Comuns sobre sufrágio feminino (RE jun/1867).
- Abraham Lincoln + John Wilkes Booth — comunicação pós-morte (RE mar/1867).
- Maria Teresa + Maria Antonieta + Luís XVI — anedotas em torno de Gassner (RE nov/1867).
- Sr. Dombre — grupo curador de Marmande, continuidade de RE 1864–1865 (RE jun/1867).
- Sr. Quômes d’Arras — investigador do caso Grezelle (RE jul/1867).
- Sr. Morin — médium central da SPEE em sonambulismo espontâneo (Lacordaire jan/1867; Doutor Claudius ago/1867; comunicação sobre emancipação da mulher mai/1867).
- Sr. Desliens — médium central da SPEE em comunicações escritas (Joseph de Maistre, Sra. de Clérambert, Caïd Hassan).
- Eugénie Colombe — menina prodígio de 3 anos, Toulon (RE fev/1867).
- Tom, o Cego — escravo americano músico natural (RE fev/1867).
- Sr. Simonet — médium curador, Bordéus (RE ago/1867).
- Pedreiro Grezelle — La Certellerie, Eure-et-Loir (RE jul/1867).
- Sr. P… — ex-cozinheiro autodidata, Paris (RE jul/1867).
- Caïd Hassan — antigo governador de Ouerchéfâna, Tripolitânia (RE out/1867).
- Dr. Charles Grégory — médico homeopata, espírita; debate com Kardec sobre Homeopatia moral (RE mar + jun/1867).
- Jean Macé — fundador da Liga do Ensino (RE mar + abr/1867).
- Hippolyte Rodrigues — autor de Les trois filles de la Bible (RE fev/1867).
- Sra. de Hive — autora de discurso em Salter’s Hall sobre Terra como inferno (RE dez/1867).
- Sr. Philaléthès — redator do La Vérité de Lyon, debate sobre “milagre” (RE mai/1867).
- N. de Wailly — membro da Academia das Inscrições; análise do processo de Joana d’Arc (RE dez/1867).
- Sr. Quicherat — historiador editor do processo de Joana d’Arc (RE dez/1867).
- Sr. Wallon — biógrafo de Joana d’Arc (RE dez/1867).
Divergências
Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Pontos a registrar sem flag de divergência:
- Recusa categórica do “demônio único agente” da Igreja Católica (RE fev/1867, “Refutação da intervenção do demônio”) — continuidade direta de RE ago/1865 (Padre Dégenettes); usa autoridade interna (Mons. Freyssinous) para sustentar a tese.
- Recusa do vocabulário “milagre / sobrenatural / sobre-humano / demônio” (RE mai/1867, “Do emprego da palavra ‘milagre’”) — política terminológica fixada “em perfeito conhecimento de causa e com intenção”; entra em [[wiki/obras/genese|Gênese]] cap. XIII.
- Refutação da Homeopatia moral (RE mar + jun/1867) — debate prolongado com o Dr. Grégory. Não é divergência interna; é defesa da autonomia do princípio espiritual contra qualquer tese que pretenda corrigir o Espírito por meios materiais. “As aptidões do Espírito são sempre uma causa, e o estado dos órgãos um efeito”.
- Distinção médium-curador × médium-médico (RE out/1867) — elaboração progressiva da doutrina do desinteresse, não divergência. Cristaliza tese de futuro: convergência ciência médica + mediunidade.
- Crítica de pontos doutrinários em Fernande de Doinel (RE ago/1867) — Doinel admite só existências posteriores e descreve perfeição como esquecimento dos afetos terrenos. Kardec invoca o controle universal (“se em 1.000 centros, 990 dizem o mesmo”) como árbitro contra opiniões individuais discordantes.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1867. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1867.
- Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1867. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
- Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1867. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
- Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1867.
- Edição local: 1867 (130 artigos integrais baixados da Kardecpédia, particionados em 12 arquivos mensais).