Ida Pfeiffer

Identificação

  • Nome: Ida Pfeiffer, nascida Reyer (1797–1858), viajante austríaca
  • Origem: Viena. Filha de comerciante; aos 45 anos, viúva, iniciou viagens solitárias pelo mundo
  • Vida e obra: uma das primeiras grandes viajantes europeias por conta própria. Realizou duas voltas ao mundo (1846–1848 e 1851–1855), além de viagens à Terra Santa, Egito, Islândia, Madagascar. Publicou narrativas que se tornaram populares: Viagem de uma mulher ao redor do mundo (1850), Segunda Viagem ao Redor do Mundo (1856) — fonte direta da evocação na Revista. Morreu em 1858 de febre malárica contraída em Madagascar
  • Distinção pública: Sociedades Geográficas de Berlim e Paris a admitiram como membro honorário (raríssimo para mulher do séc. XIX); recusada pela Royal Geographical Society de Londres pelo motivo do sexo

Papel

Espírito evocado por causa do caso de Java, em dezembro de 1859 da Revista Espírita (“Palestras familiares de além-túmulo — Sra. Ida Pfeiffer, Célebre viajante”). Pfeiffer havia falecido um ano antes (1858) e Kardec a cita como “uma senhora realmente superior, menos por sua instrução e por seu talento do que pela incrível energia de seu caráter”, com fama de rigor documental: “Tinha como lei só contar aquilo que ela mesma tivesse visto, ou captado em fonte insuspeita.”

A função doutrinária é dupla:

  1. Confirmação retrospectiva de fenômenos paranormais por testemunha confiável — o caso da casinha de Chéribon, em Java (chuva de pedras e siri — preparação que dá à saliva cor de sangue — caindo perto de uma criança específica sem feri-la, oficial superior holandês confirmando os fatos sob escolta), publicado por Pfeiffer em sua Segunda Viagem (1856), é confirmado parcialmente pelo Espírito.
  2. Caso modelar de afinidade/missão pré-encarnatória — o “pronunciado gosto pelas viagens” da viajante é explicado pela existência anterior como marinheiro, escolha de gênero feminino na encarnação seguinte para “subtrair-se” ao gosto, frustrada pela permanência da inclinação. Doutrinariamente articula livre-arbítrio na escolha de provas e persistência de tendências adquiridas em vidas anteriores.

Citações relevantes

Sobre a transição instantânea ao chamado:

”— Estais surpresa pelo nosso chamado e por vos encontrardes entre nós?
— Estou surpresa com a rapidez da minha viagem.
— Como fostes prevenida de que desejávamos falar-vos?
— Fui trazida aqui sem o perceber. […] Um arrastamento irresistível.”
(RE, dez/1859)

Sobre o estado atual e a missão presente:

”— Sois feliz como Espírito?
— Sim. Não se pode ser mais feliz.
— Onde estáveis quando do nosso chamado?
— Junto a um Espírito que tenho a missão de guiar.”
(RE, dez/1859)

Sobre o gosto pelas viagens em existência anterior:

“Eu havia sido marinheiro numa vida precedente. O gosto adquirido pelas viagens naquela existência refletiu-se nesta, a despeito do sexo que eu havia escolhido para me subtrair a isso. […] As viagens contribuíram para o meu progresso como Espírito, porque eu as fiz com espírito de observação, que me faltou na existência anterior, em que não me ocupei senão do comércio e das coisas materiais. Eis por que supunha que pudesse progredir mais numa vida sedentária. Mas Deus, tão bom e tão sábio em seus desígnios para nós impenetráveis, permitiu que eu utilizasse as minhas inclinações em favor do progresso que eu solicitava.” (RE, dez/1859)

Sobre os “selvagens” da Oceania (revisão de juízo):

”— Não dissestes em vida que colocáveis certas tribos da Oceania acima das mais civilizadas nações?
— Era uma ideia errada. Hoje prefiro a França, porque compreendo sua missão e prevejo o seu destino. […] Sua missão é de semear o progresso e as luzes e, portanto, o Verdadeiro Espiritismo.”
(RE, dez/1859)

Sobre o caso de Java:

”— Confirmais o fato passado em Java e relatado numa de vossas obras?
— Confirmo-o em parte. O caso das pedras marcadas e novamente atiradas merece uma explicação. Eram pedras semelhantes, mas não as mesmas.
— A que atribuís esse fenômeno?
— Não sabia a que atribuí-lo. Eu me perguntava se o diabo existiria de fato, e respondia para mim mesma que não. Não passei disso.
— Agora que percebeis a causa, poderíeis dizer-nos de onde vinham essas pedras? Eram transportadas ou fabricadas especialmente pelos Espíritos?
— Eram transportadas. Para eles era mais fácil trazê-las do que aglomerá-las.”
(RE, dez/1859)

Doutrinas tocadas pela evocação

  • Persistência de inclinações entre encarnações — o gosto pelas viagens da existência marinheira “refletiu-se” na existência seguinte (LE q. 379, “as ideias adquiridas se conservam”; LE q. 369, “tendências instintivas”).
  • Escolha de gênero como prova / atalho — Pfeiffer escolheu o sexo feminino, em parte, para tentar atenuar o gosto pelas viagens, sem sucesso. Caso pontual em que a Doutrina trata da dimensão antropológica do gênero como instrumento de prova.
  • Transporte de objetos por Espíritos — Espíritos de baixa elevação podem transportar pedras (mais fácil) em vez de aglomerar matéria do elemento universal (modificação fluídica completa, como na pneumatografia).

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Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, dez/1859, “Palestras familiares de além-túmulo — Sra. Ida Pfeiffer, Célebre viajante” e “Doutrina da reencarnação entre os Hindus”. Edição local: 1859.
  • PFEIFFER, Ida. Segunda Viagem ao Redor do Mundo. 1856 (citada em RE, dez/1859, p. 345 da edição francesa).
  • KARDEC, Allan. Revue de Paris, 1º de setembro de 1856, e Dictionnaire des Contemporains de Vapereau (referências citadas por Kardec na biografia introdutória).