Paulo de Tarso

Identificação

Saulo de Tarso (c. 5–65 d.C.), cidadão romano, judeu da tribo de Benjamim, educado em Jerusalém aos pés de Gamaliel (At 22:3). Fariseu rigoroso, perseguidor inicial da primeira comunidade cristã (At 7:58; 8:1; 9:1–2). Após a visão de Jesus no caminho de Damasco (At 9:1–9), torna-se o apóstolo dos gentios — o principal agente da universalização da mensagem evangélica para fora do judaísmo.

Papel

Protagonista da segunda metade de Atos (caps. 13–28). Três grandes viagens missionárias cobrindo Ásia Menor, Macedônia, Grécia e ilhas; cativeiro romano; provável martírio em Roma sob Nero. Autor de boa parte do epistolário do NT (treze cartas atribuídas).

No Espiritismo, Paulo é figura seletivamente citada por Kardec:

  • “Fora da caridade não há salvação” tem raízes em 1 Co 13 (“ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade…” — ESE, cap. XV, item 4).
  • “A letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Co 3:6) — princípio hermenêutico citado por Kardec na Introdução do ESE e em diversos capítulos para justificar a leitura espírita dos evangelhos. Ver tratamento completo em segunda-epistola-aos-corintios.
  • “Há corpo animal e há corpo espiritual” (1 Co 15:44) — formulação neotestamentária do perispírito, aproveitada por Kardec (ESE, cap. IV; Gênese, cap. XIV).
  • Caridade (1 Co 13:4–7) — síntese comentada em ESE, cap. XV.

Ao mesmo tempo, Kardec reserva-se quanto a Paulo em pontos doutrinários: a predestinação absoluta (Rm 9), a condenação dos incrédulos e algumas formulações sobre a mulher/casamento são filtradas pelo critério do Pentateuco e pela moral de Jesus.

Complementaridade Paulo / Tiago em fé e obras

A leitura literalista vê contradição entre Rm 3:28 (“o homem é justificado pela fé sem as obras da lei”) e Tg 2:24 (“o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”). A leitura espírita harmoniza:

  • Paulo ataca a justificação pelas obras da Lei (circuncisão, sábado, dietas) que pretendem substituir a fé. Sua polêmica é contra o legalismo judaizante, não contra a caridade. A fé que Paulo louva em Abraão (Rm 4) é fé viva, não assentimento intelectual.
  • Tiago ataca a fé como mero assentimento intelectual que se dispensa de produzir obras — daí “também os demônios crêem” (Tg 2:19). Sua polêmica é contra o fideísmo desencarnado, não contra a fé.

Ambos louvam o mesmo Abraão como modelo (Rm 4 / Tg 2:21–23). Lutero, ao classificar Tiago como “epístola de palha”, agudizou polemicamente uma tensão que o texto não tem. Kardec resolve naturalmente em ESE cap. XIX, item 7: fé verdadeira é a que produz ato; sem ato, não é fé verdadeira — qualquer que seja o vocabulário com que se a chame. Ver epistola-de-tiago · fe.

No plano histórico, Paulo e Tiago colaboraram diretamente: Tiago presidiu o concílio de Jerusalém (At 15) que destravou a missão de Paulo aos gentios sem exigir circuncisão. Paulo o reconhece como uma das “colunas” da Igreja (Gl 2:9). Não há dois cristianismos antagônicos — há dois ângulos polêmicos sobre a mesma fé viva.

Nota sobre Hebreus

A Epístola aos Hebreus é, neste projeto, mantida no corpus paulino ampliado, como é prática tradicional das casas espíritas brasileiras. Mas o leitor deve saber: Hebreus não traz nome de autor no próprio texto (diferente de todas as demais cartas atribuídas a Paulo) e sua autoria foi posta em dúvida já na Antiguidade. Orígenes (séc. III) conclui célebremente que “quem de fato escreveu a carta, só Deus sabe” (apud Eusébio, História Eclesiástica VI.25.14). Diferenças marcantes de vocabulário, estilo e construção argumentativa em relação ao corpus paulino autêntico levam o consenso crítico moderno a considerar a autoria paulina improvável; candidatos alternativos discutidos: Apolo (1 Co 3), Barnabé, Priscila. Para panorama historiográfico, ver o verbete “Epístola aos Hebreus” na Wikipédia em português. A voz espiritual da carta é do apostolado primitivo dirigindo-se a cristãos de origem judaica; lê-la como “escrito do círculo paulino” resguarda a honestidade intelectual.

Leitura emmanuelina — Paulo e Estêvão

Em paulo-e-estevao (Emmanuel / Chico Xavier, 1941; FEB 1942), a conversão de Damasco é apresentada não como operação mecânica da graça, mas como fruto cooperado da intercessão de uma vítima. A oração de Estêvão pelo perseguidor presente (At 7:60) — paralela a Lc 23:34 — soma-se à intercessão póstuma de Abigail (irmã fictícia do mártir, na trama do romance) para preparar o exame de consciência que Saulo enfrenta na estrada de Damasco. A obra explicita, com personagens encarnados, a articulação entre lei de causa e efeito e lei de justiça, amor e caridade — o convertido paga em décadas de apostolado e martírio em Roma o débito da lapidação, e o Cristo recebe verdugo e mártir no mesmo Reino: “é da vontade de meu Pai que os verdugos e os mártires se reúnam, para sempre, no meu Reino.” Ler a moldura novelística (Estêvão como “Jeziel de Corinto”, Abigail como noiva de Saulo) como dispositivo dramático declarado por Emmanuel, não como reconstrução factual do texto canônico.

Fenomenologia mediúnica

A biografia de Paulo é um compêndio de fenômenos mediúnicos da mais alta ordem, todos enquadráveis em Gênese, caps. XIV–XV:

  1. Aparição tangibilizada do Cristo — Damasco (At 9:1–9; relatada também em At 22:6–11 e At 26:12–18). Luz resplandecente, voz direta, cegueira temporária com recuperação por imposição de mãos.
  2. Visões diretivas repetidas — varão macedônico (At 16:9); encorajamento em Corinto (At 18:9–10); aparição na cela em Jerusalém (At 23:11); anjo no navio (At 27:23–24).
  3. Arrebatamento ao terceiro céu (2 Co 12:1–4) — desdobramento pleno/êxtase (LM, 2ª parte, cap. XIX; emancipação profunda da alma, LE, q. 400–418). A insegurança paulina sobre o estado físico (“se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei”) é descrição honesta da fenomenologia da emancipação plena. Acompanhado pelo “espinho na carne” (12:7–9) — prova reparadora pedagógica que a prece três vezes feita não removeu, mas para a qual a graça divina foi suficiente (“a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”, 12:9).
  4. Cura por imposição das mãos e por contato de objetos (At 19:11–12; At 28:8) — ação fluídica (Gênese, cap. XIV).
  5. Desobsessão da pitonisa de Filipos (At 16:16–18) — caso clássico comentado em obsessao.
  6. Mediunidade profética consciente — anúncios sobre o próprio destino (At 20:22–25; 21:13).
  7. Insensibilidade pontual a veneno (At 28:3–6) — item litigioso; ver nota em sinais-de-marcos-16.

Citações relevantes

  • “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fp 1:21) — convicção da imortalidade.
  • “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7) — balanço de missão cumprida.
  • “Há corpo animal, e há corpo espiritual” (1 Co 15:44) — perispírito.
  • “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17:28, citando poetas gregos) — imanência divina.
  • “Deus não faz acepção de pessoas” (Rm 2:11; eco de At 10:34) — universalismo moral.
  • “A caridade é paciente, é benigna […] tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Co 13:4–7).
  • “Os gentios […] mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência” (Rm 2:14–15) — formulação paulina direta da lei moral na consciência (LE q. 621).
  • “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Rm 7:19) — descrição paulina da luta moral interior; paralelo de ESE cap. XVII.
  • “As aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm 8:18) — ancoragem paulina da leitura espírita do sofrimento (ESE cap. V).
  • “Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8:28) — providência articulada à sintonia moral.
  • “O cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:10) — formulação paulina da Lei de Justiça, Amor e Caridade.
  • “Cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14:12) — princípio da responsabilidade individual.
  • “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:20) — identificação moral progressiva com o Cristo.
  • “Em Cristo Jesus não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea” (Gl 3:28) — universalismo radical, paralelo a Rm 2:11; At 10:34.
  • “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou” (Gl 5:1) — recusa do jugo cerimonial.
  • “Em Jesus Cristo […] sim a fé que opera pelo amor” (Gl 5:6) — fórmula sintética da fé viva paulina; eco direto de Tg 2:14–17.
  • “Toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5:14) — paralelo a Mt 22:39 e Rm 13:8–10.
  • “O fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gl 5:22–23) — catálogo moral fundamental.
  • “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6:2) — caridade ativa.
  • “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7) — formulação apostólica direta da lei de causa e efeito.
  • “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor” (Ef 5:1–2) — formulação compacta de “Sede perfeitos” (Mt 5:48; ESE cap. XVII).
  • “Vos despojeis do velho homem […] e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4:22–24) — imagem nuclear da reforma íntima.
  • “Sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Ef 4:32) — perdão fraterno como espelho do perdão divino.
  • “Não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século” (Ef 6:12) — vida moral como combate; lida pela escala espírita (LE q. 100–113).

Páginas relacionadas

  • atos-dos-apostolos — caps. 9, 13–28
  • paulo-e-estevao — Emmanuel / Chico Xavier (1941). Romance histórico em vinte capítulos alternando os arcos Saulo→Paulo e Jeziel→Estêvão, da perseguição a Damasco até o martírio em Roma sob Nero. Tese central: “sem Estêvão, não teríamos Paulo de Tarso”
  • epistola-aos-romanos — carta-tratado (2:14–15 lei na consciência; 5 aflições; 7 luta moral; 8 vida no Espírito; 13 amor cumpre a lei)
  • primeira-epistola-aos-corintios — caps. 13 (caridade), 15 (corpo espiritual), 12–14 (dons espirituais)
  • segunda-epistola-aos-corintios — apologia do ministério; “a letra mata, o espírito vivifica” (3:6, base hermenêutica do ESE); cartas vivas (3:2–3); tabernáculo terrestre / casa eterna (5:1–10); tesouro em vasos de barro (4:7); arrebatamento ao terceiro céu e espinho na carne (12:1–10); “Satanás se transfigura em anjo de luz” (11:14)
  • epistola-aos-galatas — carta da liberdade (1–2 vocação direta e confronto a Pedro em Antioquia; 3 justificação pela fé, alegoria autorizada; 5 fruto do Espírito × obras da carne; 6:7 semear e ceifar)
  • epistola-aos-colossenses — carta do cativeiro à comunidade fundada por Epafras no vale do Lico (4 capítulos). Hino cristológico (1:15–20) — Cristo como “imagem do Deus invisível” e “primogênito de toda criação”; “Cristo cabeça do corpo” (1:18; 2:19); “Cristo em vós, esperança da glória” (1:27); “ausente no corpo, presente em espírito” (2:5, paralelo de 1 Co 5:3); crítica ao “filosofismo” sem revelação (2:8) e ao culto dos anjos (2:18 — texto-âncora paulino contra mediunidade desviada para adoração de entidades); recusa do ascetismo legalista (2:16–23); imagem do “homem velho/homem novo” (3:9–10, paralelo de Ef 4); universalismo radical “não há grego nem judeu, bárbaro, cita, servo ou livre; Cristo é tudo, e em todos” (3:11); “revesti-vos de amor, vínculo da perfeição” (3:14); ⭐ trabalho como adoração “tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor” (3:23, par com 3:17 — Lei do Trabalho + adoração em espírito + pureza da intenção). Onésimo aparece em 4:9, preparando Filemom. Callout inline para Cl 1:16 atenuado via a-caminho-da-luz (Cristo-Governador planetário); divergência sobre Cl 3:18 incorporada à página renomeada condicao-feminina-nas-paulinas.
  • epistola-aos-efesios — carta circular do cativeiro romano (eleição “antes da fundação do mundo” — 1:4–5; reconciliação dos gentios e queda da “parede de separação” — 2:11–22; salvação pela graça com virada para boas obras — 2:8–10; “toda a família nos céus e na terra” — 3:15; unidade do corpo e diversidade dos dons — 4:1–16; homem velho/homem novo — 4:22–24; perdão fraterno — 4:32; imitadores de Deus — 5:1–2; armadura de Deus — 6:10–17). Bloco doméstico (5:21–6:9) com duas divergências estruturais.
  • epistola-aos-filipenses — carta da alegria, escrita do cativeiro romano com Timóteo como co-saudador (1:1; “viver é Cristo, morrer é ganho” — 1:21; hino da kenose — 2:5–11; “considerar os outros superiores a si mesmo” — 2:3; “operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós” — 2:12–13; “esquecendo das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo” — 3:13–14; “a nossa cidade está nos céus” — 3:20; “regozijai-vos sempre no Senhor” — 4:4; prece tranquilizadora — 4:6–7; disciplina mental “nisso pensai” — 4:8; contentamento aprendido e “posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” — 4:11–13). Divergência cristológica registrada (hino da kenose lido em chave calcedoniana).
  • epistola-aos-hebreusautoria paulina discutida (ver nota acima); anjos como “espíritos ministradores” (1:14; 13:2), nova aliança com a lei escrita no coração (8:10), Jesus consagrado pelas aflições (2:10; 5:8), “Pai dos espíritos” e correção pedagógica (12:5–11), fé como “firme fundamento” (11:1)
  • primeira-epistola-aos-tessalonicenses — provavelmente o documento mais antigo do NT (c. 50–51 d.C.); coassinada com Silvano e Timóteo. Fonte apostólica do livre exame: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Ts 5:21). Disciplina equilibrada da mediunidade (“não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias”) + caridade ativa em três direções (5:14) + prece como atitude permanente (5:17–18). Divergência interpretativa sobre a parousia (4:13–18) tratada inline.
  • segunda-epistola-aos-tessalonicenses — segunda carta ao mesmo trio (c. 51–52 d.C.); coassinada com Silvano e Timóteo. Carta-correção da inquietação escatológica (“o dia de Cristo já chegou”, 2:2 — possivelmente alimentada por epístola apócrifa) + passagem-âncora paulina sobre Lei do Trabalho (“se alguém não quiser trabalhar, não coma também”, 3:10) com Paulo apresentando-se como exemplo (3:7–9). Saudação autografada (3:17) como critério de identificação contra pseudepígrafe. Três divergências interpretativas tratadas inline (eternidade das penas em 1:9; “homem do pecado” em 2:3–9; “operação do erro” em 2:11).
  • primeira-epistola-a-timoteo — Pastoral paulina (c. 63–65 d.C., 6 capítulos), do intervalo entre a primeira prisão romana e o martírio. Carta-manual a Timóteo, pastor regional de Éfeso, contra falsos mestres da gnose incipiente. Fonte neotestamentária mais explícita do discernimento dos Espíritos (“espíritos enganadores, doutrinas de demônios”, 4:1); par 4:14 + 5:22 sobre imposição de mãos e cuidado fluídico; provação da riqueza (“o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males”, 6:10); um só Mediador, Cristo Jesus homem (2:5); atributos apofáticos de Deus (“luz inacessível”, 6:15–16); recusa do ascetismo extremo (4:3–5). Duas divergências culturais tratadas inline com callout: silêncio e sujeição da mulher (2:11–15) cross-linkada com condicao-feminina-nas-paulinas; submissão dos escravos (6:1–2) cross-linkada com escravidao-em-efesios-6.
  • segunda-epistola-a-timoteo — Pastoral final (c. 66–67 d.C., 4 capítulos), escrita da segunda prisão romana em vésperas do martírio sob Nero. Testamento afetivo do epistolário paulino. Eixos: passe apostólico individual (“despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos”, 1:6 + “espírito de fortaleza, amor e moderação”, 1:7); continuidade da vida espiritual (“Cristo aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção”, 1:9–10) — versículo paulino mais alto em convergência com a doutrina espírita; herança de fé materna (Loide → Eunice → Timóteo, 1:5); três metáforas do servidor (soldado/atleta/lavrador, 2:3–7); ⭐ mansidão pedagógica e desobsessão (“ao servo do Senhor não convém contender, mas sim, ser manso para com todos […] tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo”, 2:24–26) — bloco apostólico mais espírita do NT sobre pedagogia mediúnica; recusa convergente da “ressurreição já consumada” de Himeneu e Fileto (2:17–18); ⭐ balanço de encarnação cumprida (“combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”, 4:7); perdão dos inimigos na vigília do martírio (“ninguém me assistiu na minha primeira defesa […] que isto lhes não seja imputado”, 4:16, eco de Estêvão em At 7:60); reabilitação de Marcos (“Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério”, 4:11); apostasia de Demas “amando o presente século” (4:10). Sem divergências fortes; três passagens recebem interpretação em chave kardequiana inline (ressurreição como reencarnação em 2:17–18; Escrituras “divinamente inspiradas” como mediunidade inspirada em 3:16; “o Senhor lhe pague segundo as suas obras” em 4:14 como lei de causa e efeito).
  • epistola-a-tito — Pastoral paulina (c. 63–66 d.C., 3 capítulos — a mais curta), das “viagens posteriores”. Carta-manual ao cooperador gentio Tito, deixado em Creta para organizar comunidades e estabelecer presbíteros (1:5). Fio condutor: o refrão das “boas obras” (1:16; 2:7,14; 3:1,8,14) — a sã doutrina se prova pela conduta (convergência máxima com Tg 2:17 e ESE cap. XV). Eixos: universalismo da graça “a todos os homens” (2:11; 3:4); graça como pedagogia moral (2:12); pureza interior contra o legalismo cerimonial (1:15); critério moral do presbítero (1:5–9, par de 1 Tm 3); autocondenação consciencial (“condenado em si mesmo”, 3:11). Tensões culturais já mapeadas tratadas inline: sujeição da mulher (2:3–5, forma branda) → condicao-feminina-nas-paulinas; servos e senhores (2:9–10) → escravidao-em-efesios-6; cristologia alta + linguagem de resgate (2:13–14) → jesus-igual-a-deus-em-filipenses-2.
  • epistola-a-filemom — a mais curta das paulinas (c. 60–62 d.C., 25 versículos, capítulo único) e a única dirigida a um indivíduo sobre matéria pessoal/jurídica privada; autoria indisputada (uma das sete autênticas). Bilhete de intercessão pelo escravo fugitivo Onésimo, pedindo a Filemom que o receba “não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado” (1:16). Eixos: persuasão pelo amor e não pela autoridade (1:8–9); bem só tem mérito quando voluntário (1:14); regeneração moral do faltoso (1:10–11, Onēsimos/útil); reinterpretação providencial da provação (1:15); intercessão e fiança fraterna (1:18–19, resgate moral não vicário). Pólo mais atenuado da posição paulina sobre escravidão → divergência (de alcance) tratada inline, cross-linkada com escravidao-em-efesios-6.
  • jesus — aparece a Paulo em Damasco, Corinto e Jerusalém
  • pedro-apostolo — colaborador no concílio de Jerusalém (At 15)
  • tiago-irmao-do-senhor — coluna da Igreja de Jerusalém (Gl 2:9); presidiu o concílio de At 15; complementaridade Paulo/Tiago em fé e obras
  • timoteo — discípulo direto, cooperador desde Listra (At 16:1), co-saudador de seis epístolas e destinatário das duas Pastorais; “verdadeiro filho na fé” (1 Tm 1:2); convocado na carta final, em vésperas do martírio (2 Tm 4:9)
  • tito — cooperador gentio, “verdadeiro filho, segundo a fé comum” (Tt 1:4); par complementar de Timóteo — incircunciso por princípio (Gl 2:3), caso-teste da liberdade cristã sobre a Lei; emissário pacificador de Corinto e organizador da coleta (2 Co 7–8); deixado em Creta (Tt 1:5); na obra até o fim, enviado à Dalmácia (2 Tm 4:10)
  • filemom — cristão de Colossos, anfitrião de igreja doméstica, senhor de Onésimo; destinatário do bilhete em que Paulo apela à fraternidade pelo amor, não pela imposição (Fm 1:8–9, 16)
  • onesimo — escravo fugitivo de Filemom, convertido no cativeiro romano (“meu filho… que gerei nas minhas prisões”, Fm 1:10); caso paradigmático de regeneração moral, devolvido como “irmão amado” (1:16)
  • epafrodito — cooperador filipense, “irmão e cooperador, e companheiro nos combates” (Fp 2:25); enviado para servir Paulo no cativeiro romano, adoeceu quase à morte na missão (2:27, 30) — modelo do cooperador que “não fez caso da vida” pela obra
  • tiquico — cooperador da Ásia (At 20:4); portador provável de Efésios e Colossenses (Ef 6:21–22; Cl 4:7–9); “irmão amado, e fiel ministro do Senhor”
  • epistola-de-tiago — diálogo Rm 3–4 vs. Tg 2 sobre justificação
  • caridade — 1 Co 13 comentado em ESE, cap. XV
  • lei-natural — Rm 2:14–15 (lei escrita no coração)
  • lei-de-justica-amor-e-caridade — Rm 13:8–10; Ef 4:32; Ef 5:1–2
  • perispirito — “corpo espiritual” (1 Co 15:44); “segundo o Espírito” (Rm 8:5–13)
  • mediunidade — repertório fenomenológico paulino
  • discernimento-dos-espiritos — 1 Co 12:10; 14:29, 32–33
  • responsabilidade — Rm 14:12
  • obsessao — pitonisa de Filipos
  • homem-velho-homem-novo — Rm 6:6; Ef 4:22–24; Cl 3:9–10 (imagem nuclear da reforma íntima)
  • armadura-de-deus — Ef 6:10–17 (vida moral como combate equipado)
  • kenose-de-cristo — Fp 2:5–11 (esvaziamento voluntário do Espírito superior em missão)
  • contentamento — Fp 4:11–13 (contentamento aprendido; “posso todas as coisas em Cristo que me fortalece”)
  • celibato-como-ideal-paulino — 1 Co 7 vs. Lei de Reprodução
  • condicao-feminina-nas-paulinas — 1 Co 11; 14:34–35; Cl 3:18 vs. Lei de Igualdade
  • sujeicao-conjugal-em-efesios-5 — Ef 5:22–24 vs. Lei de Igualdade (LE q. 817–822)
  • escravidao-em-efesios-6 — Ef 6:5–9 vs. Lei de Igualdade e Lei de Liberdade
  • pecado-original-em-romanos-5 — Rm 5:12–19 vs. LE q. 621; Gênese cap. XI
  • predestinacao-em-romanos-8-9 — Rm 8:29–30; 9:11–23; Ef 1:4–5, 11 vs. livre-arbítrio (LE q. 843)
  • mudanca-de-sexo-reencarnacao — Rm 1:26–27 ampliando o debate Kardec vs. Léon Denis
  • uma-morte-e-juizo-em-hebreus-9 — Hb 9:27 (“aos homens está ordenado morrerem uma vez”) vs. pluralidade das existências
  • recaida-sem-arrependimento-em-hebreus — Hb 6:4–6; 10:26–27 (impossibilidade de renovação após recaída) vs. misericórdia infinita e progresso indefinido
  • sangue-expiatorio-em-galatas — Gl 3:13 (“fazendo-se maldição por nós”) vs. responsabilidade pessoal e reparação direta
  • jesus-igual-a-deus-em-filipenses-2 — Fp 2:6–11 (hino cristológico) absolutizado pela cristologia calcedoniana vs. Jesus como “tipo mais perfeito” e Espírito puro (LE q. 625; OPE)

Fontes

  • Bíblia Sagrada (ACF). Atos dos Apóstolos, caps. 7–9, 13–28; epístolas paulinas (Rm, 1–2 Co, Gl, Ef, Fp, Cl, 1–2 Ts, 1–2 Tm, Tt, Fm). Edições: 1; 1.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Paulo e Estêvão. Rio de Janeiro: FEB, 1942 (512 p.; recepção em Pedro Leopoldo, 08/07/1941). Edição: paulo-e-estevao. Síntese curada em paulo-e-estevao.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. caps. IV, V, XI, XII, XV (item 4), XVII.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. q. 135, 200–202, 621, 843–872.
  • KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. caps. XI (raça adâmica) e XIV (perispírito).