Parábola do credor incompassivo
Definição
Parábola narrada por Jesus no contexto do mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Um rei perdoa uma dívida imensa a um servo, mas esse servo recusa perdoar uma dívida pequena a um companheiro. Ensina que devemos perdoar aos outros na mesma medida em que esperamos o perdão de Deus. Kardec a reproduz no capítulo XI do ESE.
Texto da parábola
“O reino dos céus é comparável a um rei que quis tomar contas aos seus servidores. Tendo começado a fazê-lo, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas, como não tinha meios de os pagar, mandou seu senhor que o vendessem a ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que lhe pertencesse, para pagamento da dívida. O servidor, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: ‘Senhor, tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo.’ Então, o senhor, tocado de compaixão, deixou-o ir e lhe perdoou a dívida. Esse servidor, porém, ao sair encontrando um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, o segurou pela goela e, quase a estrangulá-lo, dizia: ‘Paga o que me deves.’ O companheiro, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: ‘Tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo.’ Mas o outro não quis escutá-lo; foi-se e o mandou prender, para tê-lo preso até pagar o que lhe devia.” (S. Mateus, 18:23–30)
“Os outros servidores, seus companheiros, vendo o que se passava, foram, extremamente aflitos, e informaram o senhor de tudo o que acontecera. Então, o senhor, tendo mandado vir à sua presença aquele servidor, lhe disse: ‘Mau servo, eu te havia perdoado tudo o que me devias, porque mo pediste. Não estavas desde então no dever de também ter piedade do teu companheiro, como eu tivera de ti?’ E o senhor, tomado de cólera, o entregou aos verdugos, para que o tivessem, até que ele pagasse tudo o que devia.” (S. Mateus, 18:31–34)
Jesus conclui: “É assim que meu Pai, que está no céu, vos tratará, se não perdoardes, do fundo do coração, as faltas que vossos irmãos houverem cometido contra cada um de vós.” (S. Mateus, 18:35)
Ensino de Kardec
Kardec situa esta parábola no capítulo XI do ESE (“Amar o próximo como a si mesmo”), imediatamente antes do comentário sobre a regra de ouro (ESE, cap. XI, item 4):
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A desproporção entre as duas dívidas — dez mil talentos contra cem dinheiros — ilustra a desproporção entre o que pedimos a Deus e o que nos recusamos a conceder ao próximo. Exigimos indulgência, benevolência e devotamento dos nossos semelhantes, mas não lhes oferecemos o mesmo.
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O perdão pedido na Oração Dominical — “Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hão ofendido” — contém a mesma lógica da parábola: Deus nos trata na medida em que tratamos os outros (ESE, cap. X, item 3).
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Kardec conclui que “a prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo” e que, quando os homens as adotarem como regra de conduta, “compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça” (ESE, cap. XI, item 4).
A parábola se conecta também ao ensino sobre indulgência (ESE, cap. X, itens 15–18): a verdadeira caridade é ser severo consigo mesmo e indulgente com os outros.
Aplicação prática
A parábola convida ao exame de consciência: em quantas situações somos devedores impiedosos sem perceber? Cobramos dos outros uma perfeição que não temos, guardamos ressentimento por ofensas pequenas enquanto esperamos que Deus perdoe nossas faltas graves. Na vida espírita, a prática do perdão sincero — “do fundo do coração”, não apenas da boca — é condição para o progresso moral e para a paz interior.
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Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XI (“Amar o Próximo como a Si Mesmo”), itens 3–4. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Novo Testamento. S. Mateus, 18:23–35.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. X (“Bem-aventurados os que São Misericordiosos”), itens 3, 15–18. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.