Revista Espírita — Ano de 1868
Décimo-primeiro volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1868. Ano de publicação de [[wiki/obras/genese|A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo]] — quinto e último livro do Pentateuco em ordem cronológica de complementação (após [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]], 1865) — saída em janeiro de 1868 pela Bureaux de la Revue Spirite. Ano da Constituição Transitória do Espiritismo (dez/1868) — primeiro projeto institucional formal de Kardec, último texto programático publicado em vida (morre em 31/03/1869, quatro meses depois). Volume articula dois eixos centrais: (1) fechamento doutrinário do Pentateuco com A Gênese, acompanhada na Revista por ⭐⭐ “Apreciação da obra sobre a gênese” (fev/1868, comunicação de São Luís) e ⭐⭐ “A geração espontânea e a Gênese” (jul/1868); e (2) abertura institucional pós-Pentateuco com a Constituição Transitória, articulada com o discurso programático da Sessão anual comemorativa dos mortos (dez/1868) onde Kardec fixa a formulação canônica “no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto […] Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”. Frentes longas do volume: ⭐⭐ “Comunhão de pensamentos” (dez/1868, doutrina fluídica das reuniões coletivas); ⭐⭐ “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (mar/1868); ⭐⭐ “O fim do mundo em 1911” (abr/1868, recusa metodológica de profecia apocalíptica datada); ⭐⭐ “A ciência da concordância dos números e a fatalidade” (jul/1868, defesa do livre-arbítrio); ⭐⭐ “O partido espírita” (jul + ago/1868, recusa da categorização político-partidária); ⭐⭐ “Doutrina de Lao-Tseu — Filosofia Chinesa” (out/1868, primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa não-cristã); refutação do Abade Poussin (jan/1868); ⭐ “Comunhão Lavater à Imperatriz Maria da Rússia” (mar–jun/1868); ⭐ “Fotografia do Pensamento” (jun/1868). Frente cultural ampla: convulsionários árabes Aïssaouá em Paris (jan/1868), Lavater (mar–jun/1868), Lao-Tseu (out/1868), pecado original segundo o judaísmo (nov/1868) — abertura do Espiritismo a horizontes não-cristãos.
“O Espiritismo seguia a sua rota sem provocar qualquer manifestação pública […]. Já que lhe dão este nome [partido], ele o aceita, certo de que não o desonrará por qualquer excesso, porque repudiaria quem quer que dele se prevalecesse para suscitar a menor perturbação.” — Kardec, “O partido espírita” (RE jul/1868).
“Por sua natureza e por seus princípios, o Espiritismo é essencialmente pacífico; é uma ideia que se infiltra sem ruído […] forte pelas leis naturais, nas quais se apoia, vendo-se crescer sem esforços nem abalos.” — Idem.
Dados bibliográficos
- Autor: allan-kardec
- Período de publicação: janeiro a dezembro de 1868 (12 fascículos mensais)
- Total de artigos: 56 catalogados no raw (estimativa da tabela mestra: 128 — discrepância por subdivisão diferente; muitos artigos longos do volume tratam vários temas em sequência sem subtítulos
###) - Editora original: Bureaux de la Revue Spirite, Paris
- Página-mãe: revista-espirita — visão de conjunto dos 12 volumes (1858–1869)
- Volume anterior: revista-espirita-1867 (ainda não detalhado)
- Volume seguinte: Revista Espírita 1869 (volume póstumo, jan–abr/1869, ainda não detalhado)
- Texto integral: 1868
- Fonte original online: Kardecpédia — Revista Espírita 1868
- Nível na hierarquia de autoridade: 2 — Kardec complementar.
Posição no projeto editorial
1868 é o ano de fechamento doutrinário do Pentateuco e o ano de abertura institucional pós-Pentateuco. A publicação de [[wiki/obras/genese|A Gênese]] em janeiro/1868 completa a programação anunciada na Alocução de reabertura da SPEE de 6/10/1865 (“os trabalhos que me restam para terminar são consideráveis”) — restavam, entre os títulos vivos, A Gênese e a Constituição do Espiritismo. A Revista acompanha o livro: a comunicação de São Luís (médium Desliens, 18/12/1867) publicada em fev/1868 sob o título “Apreciação da obra sobre a gênese” anuncia que “O Espiritismo atualmente entra numa nova fase. Ao atributo de consolador, alia o de instrutor e diretor do Espírito, em Ciência e em Filosofia, como em moralidade”; em jul/1868, “A geração espontânea e a Gênese” defende o cap. X (gênese orgânica) contra objeções científicas materialistas.
Doutrinariamente, 1868 articula três eixos que fecham a fase codificadora e abrem a fase organizativa:
- Quinto pilar do Pentateuco — A Gênese (jan/1868) sistematiza a doutrina sobre criação, milagres e predições. Articulação com a Revista: cap. XIV (“Os fluidos”) já antecipado na frente fluídica de 1864–1866; cap. X (“Gênese orgânica”) defendido em jul/1868; cap. XV–XVII (“Os milagres do Evangelho”, “As predições do Evangelho”) aplicados em “O fim do mundo em 1911” (abr/1868) e “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (mar/1868); cap. XVIII (“Os tempos chegados”) como fundo permanente do volume.
- Constituição Transitória do Espiritismo (dez/1868) — primeiro projeto institucional formal em 9 capítulos: Considerações preliminares · Extrato do relatório da caixa do Espiritismo (1865) · Dos cismas · O chefe do Espiritismo · Comitê central · Obras fundamentais da doutrina · Atribuições do comitê · Vias e meios · Conclusão. Resposta sistemática à pergunta vital “Quem lhe tomará as rédeas depois de nós?“. Recusa do chefe individual (“o pior de todos os chefes seria aquele que se desse por eleito de Deus”); proposta de Comitê Central de 12 membros titulares; programa institucional (biblioteca, museu, dispensário, caixa de socorro, casa de retiro, sociedade). Articulação direta com “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (mar/1868): os messias previstos “não trarão na testa uma marca para se fazerem reconhecer […] e não serão reconhecidos como tais pela maioria senão depois de sua morte, conforme o que tiverem feito durante a vida”.
- Estatuto do Espiritismo como religião filosófica, não como culto — discurso da Sessão anual comemorativa dos mortos (1º/11/1868, publicado em dez/1868) fixa a formulação canônica que decide a questão. Doutrina da comunhão de pensamentos como matriz fluídica das reuniões coletivas: “O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar”; “A esses efeitos da comunhão dos pensamentos, junta-se um outro: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto de pensamentos ou vontades reunidas”. Enumeração programática do credo espírita (item 10 abaixo).
A frente cultural do volume é a mais ampla de toda a Revista: convulsionários Aïssaouá árabes na Exposição Universal de 1867 (jan/1868); correspondência de Lavater (Espírito protestante alemão) à Imperatriz Maria da Rússia (ortodoxa) — quatro cartas em mar–jun/1868; Lao-Tseu e a filosofia chinesa (out/1868); pecado original segundo o judaísmo (nov/1868). Reconhecimento de que a doutrina espírita encontra ecos transversais em todas as tradições.
Marcos cronológicos
| Mês | Marcos do fascículo |
|---|---|
| Janeiro | ⭐⭐ “Golpe de vista retrospectivo” — balanço de 1867: “a previsão realizou-se plenamente”; obras espíritas e simpatizantes (Mirette de Sauvage, Le Roman de l’Avenir de Bonnemère, Dieu dans la Nature de Flammarion, La Raison du Spiritisme do juiz de instrução Bonnamy); curas do zuavo Jacob como fenômeno marcante (“as curas do zuavo Jacob ocupam o primeiro lugar”); profecia do padre D… cumprida pela aliança dos literatos; advertência: “os seus piores dias não passaram. Ele ainda não recebeu o batismo que consagra todas as grandes ideias”. ⭐⭐ “O Espiritismo - Ante a história e a igreja, sua origem, sua natureza, sua certeza, seus perigos” — peça anti-eclesiástica longa, refutação do livro do Abade Poussin (professor no Seminário de Nice). Argumento canônico: “se esses mesmos Espíritos, em vez de contradizer a Igreja sobre alguns pontos, tivessem sido em tudo da sua opinião […] ela não os chamaria de demônios, mas de Espíritos angélicos”; “o diabo destruiria a si próprio” (citação de Mons. Frayssinous); demolição da tese da Igreja como única detentora de efeitos divinos. Continuidade direta da frente Bispo de Langres (jun/1864) e Padre Dégenettes (ago/1865). ⭐ “Os Aïssaouá ou os convulsionários da rua Le Peletier” — seita árabe norte-africana exibida na Exposição Universal de 1867 (sala da arena atlética da rua Le Peletier; antes no teatro do Campo de Marte), com auto-mutilações sem dor, ingestão de vidro e brasas, dança da loucura. Primeiro tratamento substantivo de fenomenologia islâmica na Revista (continuidade da frente Maomé/Islã iniciada em RE 1866). “Manifestação antes da morte”; “Variedades”; “Bibliografia”; “Erratum”. |
| Fevereiro | ⭐ “Extraído dos manuscritos de um jovem médium bretão” — segunda colheita do acervo do jovem médium bretão (cf. Le Roman de l’Avenir, Bonnemère, jun/1867), com tipologia em 4 categorias — Alucinados, Inspirados, Fluídicos, Sonâmbulos. Material para identidade-dos-espiritos e mediunidade. “Votos de ano novo de um espírita de Leipzig”; “Instruções dos Espíritos”. ⭐⭐ “Apreciação da obra sobre a gênese” — comunicação central do volume: São Luís (médium Desliens, 18/12/1867, ou seja, antes mesmo da publicação oficial de jan/1868) sobre A Gênese: “Esta obra chega no momento certo, no sentido que a Doutrina está hoje bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso. […] Por esse livro, como eu vos disse, o Espiritismo entra numa nova fase, e essa preparará o caminho para a fase que se abrirá mais tarde”. Anunciar a virada consolador → instrutor e diretor do Espírito — programa que será cumprido na Constituição Transitória de dez/1868. “Bibliografia” (resenha do Resumo da doutrina espírita de Florent Loth de Amiens). |
| Março | ⭐⭐ “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (continuação de RE fev/1868, “Os messias do Espiritismo”) — fixação doutrinária da figura do messias espírita: “todo Espírito encarnado para cumprir uma missão especial junto à Humanidade é um messias, na acepção geral da palavra […] missionário ou enviado”; recusa da forma teatral cristológica: “sua vinda não será marcada por nenhum prodígio, e Deus não perturbará a ordem das leis da Natureza para permitir que eles sejam reconhecidos. Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu nem na Terra […]. Nascerão, viverão e morrerão como o comum dos homens”; advertência contra falsos messias (Cap. XXI do ESE como controle); pluralidade dos messias (“haverá vários […] uns dizem três, outros mais, outros menos”); identificação inconsciente do próprio messias e de quem o protege (“se alguém deve abrigar a infância de um deles, o fará inconscientemente”); vigésimo século como o século dos messias (“é sobretudo o vigésimo século que verá florescerem grandes apóstolos do Espiritismo”). Material que articula com a Constituição Transitória (dez/1868, capítulo IV, “O chefe do Espiritismo”). ⭐ “Correspondência inédita de Lavater com a imperatriz Maria da Rússia” — abertura do ciclo Lavater (continua em mar–jun/1868). Quatro cartas de Johann Caspar Lavater (pastor protestante de Zurique, 1741–1801) à Imperatriz Maria Feodorovna (esposa de Paulo I da Rússia, 1798), publicadas inéditas. Conteúdo: estado da alma após a morte; encarnação do amor; comunicações pós-morte. Primeiro caso na Revista de transmissão epistolar histórica entre Espírito protestante alemão e soberana ortodoxa russa. ⭐ “Flageolet — Espírito mistificador” — caso de Saumur/Vernantes: Biron (violinista popular morto, apelidado Flageolet) frequenta as sessões de família, toca canções, executa pranks (esconde tabaqueira no fogo, boné na estátua de Napoleão I). Material para escala-espirita (Espíritos levianos, mistificadores) e tese fundamental: “a idade do corpo não é absolutamente um indício da idade do Espírito” — Espírito jovem em corpo adulto, Espírito adulto em corpo de criança. ⭐ “Ensaio teórico das curas instantâneas” — sistematização da mediunidade curadora em três modos de reparação orgânica: medicamentos in natura; homeopatia (matéria atomizada que adquire propriedades fluídicas); fluido magnético (“matéria espiritualizada”). Articulação com cap. XIV de Gênese. Limite metafísico das curas: “a maioria das moléstias […] são expiação do presente ou do passado, ou provações para o futuro […]. Não pode ser curado aquele que deve suportar sua provação até o fim”. “Notícias bibliográficas”; “Instruções dos Espíritos”; “Erratum”. |
| Abril | ”Correspondência inédita de Lavater” (continuação). ⭐⭐⭐ “O fim do mundo em 1911” — peça central do volume contra profecia apocalíptica datada. Refutação da brochura Le fin du monde en 1911 de Joseph Gustave Leserteur (Lyon, livraria Casa Josserand), que combina “sinais precursores anunciados no Evangelho” com cálculo cabalístico do profeta alemão Holzauzer (1613, comentário do Apocalipse) — fim do mundo fixado para 1911, precedido pelo reino do Anticristo (nascido em 1855, viveria 55 anos e meio). Kardec demolição metodológica: lembra fim do mundo previsto para 1840 (“era pregado nas igrejas […] foram feitos pedidos e provocadas doações com esse objetivo”); critica a inversão da bondade divina pela onipotência satânica (“a fé de seus ministros não é bastante grande para impedir a corrupção de introduzir-se até no santuário”); recusa da doutrina anti-progressiva. Resposta espírita pelo Espírito Jobard (Sociedade de Paris, 28/02/1868, médium Sr. Morin em sonambulismo espiritual): “o fim do mundo está próximo… mas, o fim de que mundo? Será o fim do mundo da superstição, do despotismo, dos abusos mantidos pela ignorância, pela malevolência e pela hipocrisia […]. Tudo concorre para o fim do velho mundo, e aqueles que se esforçam por sustê-lo trabalham energicamente, sem o querer, para a sua destruição”. Tese: o fim do mundo é regenerativo, não cataclísmico — material que ancora cap. XVIII de [[wiki/obras/genese|Gênese]]. “Intolerância e perseguição ao Espiritismo”; “O Espiritismo em Cadiz, em 1853 e 1868” (continuidade da frente espanhola pós-Auto-de-fé de Barcelona 1861); “Dissertações espíritas”. |
| Maio | ”Correspondência inédita de Lavater” (continuação). “Educação de além-túmulo”; “O Doutor Philippineau”; “O Espiritismo em toda a parte”; “Dissertação dos Espíritos”. |
| Junho | ⭐ “A mediunidade no Copo D’Água” — variante mediúnica baseada em hidromancia/leitura especular em copos d’água; material para tipologia de mediunidade. ⭐⭐ “Fotografia do Pensamento” — ensaio sobre a possibilidade de captação fotográfica do pensamento — primeiro tratamento sistematizado na Revista; material que será desenvolvido no ensaio dedicado em [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1ª parte). Continuidade da frente fluídica de RE 1866 (“Introdução ao estudo dos fluidos espirituais”, mar/1866) → cap. XIV de Gênese. ⭐ “A morte do Sr. Bizet, cura de Sétif” — continuidade da frente eclesiástica argelina. “O Espiritismo em toda a parte”; “Notícias bibliográficas”. |
| Julho | ⭐⭐⭐ “A ciência da concordância dos números e a fatalidade” — defesa filosófica rigorosa do livre-arbítrio diante de leis numéricas/estatísticas. Articula matemática de jogos (vermelho-preto, dados, antiga loteria francesa) e mortalidade com o princípio: “a fatalidade é o freio imposto ao homem por uma vontade superior a ele, e mais sábia que ele, em tudo o que não é deixado à sua iniciativa. Mas ela jamais é um entrave ao exercício de seu livre-arbítrio, no que toca às suas ações pessoais”. Tese epistemológica: “o Espiritismo, que assimila todas as verdades, quando são constatadas, não irá repelir essa [lei dos números]. Mas como, até o presente, essa lei não é atestada nem por um número suficiente de fatos nem por uma demonstração categórica, com ela devemos preocupar-nos muito pouco”. Material para livre-arbitrio e provas-e-expiacoes. ⭐⭐ “A geração espontânea e a gênese” — defesa científica do cap. X de [[wiki/obras/genese|Gênese]] (gênese orgânica) contra objeções materialistas. ⭐⭐⭐ “O partido espírita” (parte 1) — manifesto contra a categorização político-partidária. Conselheiro Genteur denuncia ao Senado (em junho/1868) a existência do partido espírita como ameaça às instituições; jornais (Moniteur, La Liberté, Le Siècle, Revue Politique Hebdomadaire) repercutem com vários graus de ironia. Resposta de Kardec: “Os espíritas se consideravam como uma escola filosófica, mas nunca lhes tinha vindo à cabeça se julgar um partido”; aceita o título mas o redefine: “Já que lhe dão este nome, ele o aceita, certo de que não o desonrará por qualquer excesso, porque repudiaria quem quer que dele se prevalecesse para suscitar a menor perturbação”; “Por sua natureza e por seus princípios, o Espiritismo é essencialmente pacífico”. Caráter: paradoxalmente, a denúncia oficial dá ao Espiritismo “uma classe, um lugar, pondo-a em relevo, porque a ideia de partido implica a de uma certo poder, de uma opinião bastante importante, bastante ativa e bastante expandida para representar um papel, e com a qual é preciso contar”. “O Espiritismo em toda a parte”; “Bibliografia”. |
| Agosto | ”O materialismo e o direito”; “O jornal La Solidarité”; ⭐⭐ “O partido espírita” (parte 2) — continuação da polêmica de jul/1868 com novos artigos da imprensa. “Perseguições”; “Espiritismo retrospectivo”; “Carta do Sr. Monico”; “Bibliografia”. |
| Setembro | ”Aumento e diminuição do volume da Terra” — geofísica espiritual; ⭐ “A alma da Terra” — tese da anima mundi aplicada ao globo terrestre como organismo coletivo (material que articula com o conceito de Espírito da Terra em Gênese cap. VI). “Da proteção do Espírito dos Santos Patronos” — recusa da hagiologia católica sob ângulo espírita; “A poltrona dos antepassados”; “Círculo da moral espírita — Em Toulouse”; “As memórias de um marido (Pelo Sr. Fernand Duplessis)”; “Bibliografia”; “Instruções dos Espíritos”; “No prelo”; “Liga internacional da paz”. |
| Outubro | ”Meditações (Por C. Tschokke)“. ⭐⭐ “Doutrina de Lao-Tseu - Filosofia Chinesa” — primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa não-cristã na Revista. Notícia enviada por correspondente em Saigon, na Cochinchina; tradução do sinólogo Pauthier. Exposição da cosmologia do Tas (razão suprema) e da moral. Tese central de Kardec: “se é certo que ela [a doutrina de Lao-Tseu] nada contém de incompatível com o que admite a razão, por que não seria tão boa quanto tantas outras que dificilmente suportam a discussão? […] os princípios filosóficos do Espiritismo não são, em substância, senão os de Lao-Tseu”; reconhecimento da única tendência divergente: “a leve tendência panteísta da não distinção, ou melhor, da identificação da criatura santificada com o Criador”. Continuidade do estudo de Maomé e o Islamismo (RE 1866). ⭐ “Exéquias da senhora Victor Hugo” — falecimento em Bruxelas (28/08/1868), inumação em Villèquiers (Seine-Inférieur, junto à filha e ao genro); discurso de Paul Meurice sobre o túmulo (acompanhamento de Victor Hugo até a fronteira). Continuidade da frente Hugo aberta em RE fev/1865. ⭐ “Efeito moralizador da reencarnação”. ⭐ “Uma profissão de fé materialista” + ⭐ “Profissão de fé semi-espírita” — par doutrinário em demarcação tripartite (materialismo / semi-espiritismo / espiritismo pleno). “Instruções dos Espíritos”; “Variedades”; “Bibliografia”. |
| Novembro | ”Epidemia na Ilha Maurícia” — caso de obsessão coletiva tropical (continuidade da frente do Ramanenjana de Madagascar, RE fev/1865); “O Espiritismo em toda a parte”; ⭐ “Do pecado original segundo o judaísmo” — primeiro tratamento sistematizado da leitura judaica do Gn 3 na Revista. Continuidade do tríptico cultural do volume (Aïssaouá jan/1868, Lao-Tseu out/1868, judaísmo nov/1868). “Os lazeres de um Espírita no deserto”; “Fenômenos de linguística”; “Música do espaço”; “O espiritualismo e o ideal”; “Instruções dos Espíritos”; “Bibliografia”; “Aviso”. |
| Dezembro | ⭐⭐⭐ “Sessão anual comemorativa dos mortos” (Sessão de 1º/11/1868 — dia de Todos os Santos) — discurso central de Kardec articulando: (a) doutrina da comunhão de pensamentos como matriz fluídica das reuniões coletivas (“O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar”); (b) tese: “O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo” — recusa do anticlericalismo radical que rejeita assembleias religiosas; (c) ⭐⭐⭐ formulação canônica: “no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da natureza”; (d) explicação do contraste com a fórmula corrente “o Espiritismo não é uma religião”: “na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto […] uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios […]. Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”; (e) ⭐⭐⭐ enumeração programática do credo espírita em ~14 itens (Deus único, alma imortal, preexistência, pluralidade das existências como meio de expiação/reparação/adiantamento, justiça equitativa, livre-arbítrio, continuidade entre os dois mundos, solidariedade, vida terrestre como transitória, prática da caridade, controle pelo livre exame e pela razão, respeito a todas as crenças sinceras, ciência como revelação das leis de Deus); (f) caridade benevolente e beneficente como duas grandes divisões do amor ao próximo; comunicações pós-morte de Guillaumin (médium Leymarie), Jean-Jacques Rousseau (médium Morin) — “o isolamento social e religioso conduz ao egoísmo” —, e três aforismos breves (Sra. Victor Hugo, Sra. Dauban, Sr. Vézy). ⭐⭐⭐ “CONSTITUIÇÃO TRANSITÓRIA DO ESPIRITISMO” — texto institucional formal em 9 capítulos (ver linha-de-força nº 2 abaixo). “Bibliografia”; “Aviso”. |
Linhas-de-força do volume
1. Publicação de A Gênese (janeiro/1868) — Revista como acompanhante editorial
A publicação de [[wiki/obras/genese|A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo]] em janeiro/1868 completa o programa anunciado em 6/10/1865. Diferente do silêncio editorial estrito que havia sobre o ESE em 1864 e o C&I em 1865, em 1868 a Revista publica peças explicitamente articuladas ao livro:
- ⭐⭐ “Apreciação da obra sobre a gênese” (RE fev/1868) — comunicação de São Luís (médium Desliens, 18/12/1867 — antes mesmo da publicação oficial): “Esta obra chega no momento certo, no sentido que a Doutrina está hoje bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso. […] Por esse livro, como eu vos disse, o Espiritismo entra numa nova fase”. Articula a virada consolador → instrutor e diretor do Espírito.
- ⭐⭐ “A geração espontânea e a Gênese” (RE jul/1868) — defesa científica do cap. X (gênese orgânica) contra objeções materialistas.
- “Ensaio teórico das curas instantâneas” (RE mar/1868) — articulação com cap. XIV de Gênese sobre fluidos.
- “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (RE mar/1868) — articulação com cap. XV–XVII de Gênese sobre milagres e predições.
- “O fim do mundo em 1911” (RE abr/1868) — articulação com cap. XVIII de Gênese sobre os tempos chegados.
A Revista funciona, em 1868, como vitrine programática do livro recém-publicado.
2. Constituição Transitória do Espiritismo (dezembro/1868) — primeiro projeto institucional formal
A “Constituição Transitória do Espiritismo” (RE dez/1868) é o texto institucional mais importante do volume e o último texto programático publicado por Kardec em vida (4 meses antes de sua morte em 31/03/1869). Estrutura em 9 capítulos:
- Considerações preliminares — justifica a forma transitória: “podendo este plano prestar-se a todos os desenvolvimentos que o futuro reserva”.
- Extrato do relatório da caixa do Espiritismo (republicado de RE jun/1865) — contas pessoais de Kardec, defesa contra calúnias sobre milhões e equipagem principesca, declaração: “não vivo às custas de ninguém”.
- Dos cismas — análise dos riscos de divisão e três princípios para preveni-los: clareza sem ambiguidade; círculo das ideias práticas (não utopias); caráter progressivo (assimilar todo progresso reconhecido).
- O chefe do Espiritismo — capítulo decisivo. Recusa a opção de chefe individual: “o pior de todos os chefes seria aquele que se desse por eleito de Deus. Como não é racional admitir que Deus confie tais missões a ambiciosos ou orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro messias devem ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a modéstia, numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral”; advertência contra messianismo enganoso. Decisão: direção coletiva.
- Comitê central — proposta institucional: 12 membros titulares, presidência rotativa anual por sorteio, autoridade “puramente administrativa”, decisões coletivas, controle pelas assembleias gerais. “Em vez de um chefe único, a direção será entregue a um comitê central ou conselho superior permanente — o nome pouco importa”. Anexos: biblioteca, museu, dispensário (com médico diplomado), caixa de socorro, casa de retiro espírita, sociedade.
- Obras fundamentais da doutrina — projeto de edições populares a baixo custo (não realizado em vida).
- Atribuições do comitê (não desenvolvido em detalhe nesta análise).
- Vias e meios (não desenvolvido em detalhe).
- Conclusão (não desenvolvido em detalhe).
Articulação com “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (RE mar/1868): a Constituição é resposta institucional que substitui o messias-chefe individual pelo Comitê Central, evitando os abusos da pretensão messiânica. Material que vai para a “Constituição do Espiritismo” mais elaborada de [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1890). Ver síntese conceitual em constituicao-do-espiritismo.
3. Sessão comemorativa dos mortos (1º/11/1868) — “no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião”
O discurso da Sessão anual comemorativa dos mortos publicado em RE dez/1868 é a peça doutrinária mais articulada do volume sobre o estatuto do Espiritismo. Em três tempos:
a) Doutrina da comunhão de pensamentos. “O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Podemos dizer, portanto, com plena certeza, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.” O pensamento coletivo adquire força pelo número; reuniões espíritas têm efeito fluídico tangível, não apenas moral. Material para comunhao-de-pensamentos.
b) Recusa do anticlericalismo radical. “O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo.” — Kardec recusa a posição materialista de que basta orar individualmente em casa, em qualquer hora; defende as assembleias religiosas como necessidade fluídica e pedagógica. Posição confirmada na sequência pela comunicação pós-morte de Jean-Jacques Rousseau (médium Morin): “viver só no meio da natureza é ser egoísta e ladrão, porque o homem foi criado para a sociabilidade […]. Eu, o selvagem, o misantropo, o intratável eremita, venho aplaudir esta passagem do discurso aqui pronunciado”.
c) Estatuto canônico do Espiritismo como religião filosófica, não como culto. “Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da natureza. Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir cada ideia, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto […] uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios […]. Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral”. Distinção fundamental que dissolve o paradoxo aparente entre a fórmula corrente “o Espiritismo não é uma religião” e o reconhecimento do estatuto religioso filosófico.
d) Credo espírita programático. Enumeração em ~14 itens, idêntica em estrutura à síntese de RE ago/1865 (“O que ensina o Espiritismo”) mas reformulada como credo confessional: crer num Deus único, soberanamente justo e bom; na alma imortal; na preexistência; na pluralidade das existências como meio de expiação/reparação/adiantamento; na perfectibilidade dos seres; na felicidade crescente com a perfeição; na equitativa remuneração do bem e do mal; na igualdade de justiça sem exceções; na duração da expiação limitada pela imperfeição; no livre-arbítrio; na continuidade das relações entre os dois mundos; na solidariedade entre encarnados e desencarnados; na vida terrestre como uma das fases da vida do Espírito; em aceitar provações em vista do futuro; na prática da caridade; em esforçar-se diariamente para ser melhor; em submeter as crenças ao controle do livre exame e da razão; em respeitar todas as crenças sinceras; em ver nas descobertas da ciência a revelação das leis de Deus.
4. “O partido espírita” (julho + agosto/1868) — recusa da categorização político-partidária
Em junho de 1868, no Senado, o conselheiro de Estado Genteur denuncia oficialmente a existência do partido espírita como ameaça às instituições do império, durante o debate sobre as petições contra as bibliotecas populares de Saint-Étienne (1867) e Oullins (1868). A denúncia repercute em quatro jornais que Kardec analisa: Le Moniteur Universel (relatório oficial); La Liberté (artigo do Sr. Liévin, 13/06); Revue Politique Hebdomadaire (13/06); Le Siècle (artigo de Anatole de la Forge, 18/06).
Resposta de Kardec em duas peças (RE jul + ago/1868):
- Recusa da categorização primeiro: “Os espíritas se consideravam como uma escola filosófica, mas nunca lhes tinha vindo à cabeça se julgar um partido”.
- Aceitação reapropriadora: “já que lhe dão este nome, ele o aceita, certo de que não o desonrará por qualquer excesso, porque repudiaria quem quer que dele se prevalecesse para suscitar a menor perturbação. Por sua natureza e por seus princípios, o Espiritismo é essencialmente pacífico”.
- Vantagem editorial paradoxal: a denúncia oficial confirma o crescimento da doutrina e força a atenção da imprensa. “As massas têm a sua lógica; elas dizem que se uma coisa nada fosse, dela não falariam, e medem a sua importância precisamente pela violência dos ataques de que ela é objeto”.
- Equívoco de fundo: as petições contra as bibliotecas eram do partido da intolerância católica (que pedia a remoção das obras de Kardec), não do partido espírita — confusão que o jornal La Liberté faz sem perceber.
A peça consolida a tese da neutralidade política do Espiritismo, que será a base da resposta dos herdeiros doutrinários (especialmente Léon Denis) às polêmicas pós-Comuna de 1871.
5. “Comentários sobre os Messias do Espiritismo” (março/1868) — pluralidade messiânica e identificação inconsciente
A peça de mar/1868 (continuação da peça de fev/1868, “Os messias do Espiritismo”) fixa doutrinariamente a figura do messias espírita em chave que recusa toda forma teatral cristológica:
- Definição: “todo Espírito encarnado para cumprir uma missão especial junto à Humanidade é um messias, na acepção geral da palavra, isto é, um missionário ou enviado”.
- Pluralidade: “haverá vários […]. Uns dizem três, outros mais, outros menos, o que prova que a coisa está nos segredos de Deus”.
- Negação dos sinais sobrenaturais: “Sua vinda não será marcada por nenhum prodígio […]. Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu nem na Terra, e eles não serão vistos descendo das nuvens acompanhados por anjos. Nascerão, viverão e morrerão como o comum dos homens”.
- Identificação inconsciente: “se alguém deve abrigar a infância de um deles, o fará inconscientemente, como para o primeiro vindo […]. Ninguém, pois, deve conhecer a sua família, nem o lugar de seu nascimento, e os próprios Espíritos vulgares não o sabem”.
- Pedra de toque: “Assim como se reconhece a qualidade da árvore por seu fruto, reconhecer-se-iam os verdadeiros messias pela qualidade de suas obras, e não por suas pretensões”.
- Século XX como século dos messias: “é sobretudo o vigésimo século que verá florescerem grandes apóstolos do Espiritismo”.
Articulação direta com o capítulo IV da Constituição Transitória (dez/1868): a recusa do chefe individual no Espiritismo é resposta institucional à doutrina dos messias inconscientes — o Comitê Central substitui qualquer pretensão messiânica auto-proclamada.
6. “O fim do mundo em 1911” (abril/1868) — recusa metodológica de profecias apocalípticas datadas
A peça de abr/1868 é a demolição metodológica mais cirúrgica do volume. A brochura de Joseph Gustave Leserteur (Lyon, livraria Casa Josserand, 58 páginas in-18), divulgada em massa, combina os “sinais precursores” do Evangelho com cálculo cabalístico do profeta alemão Holzauzer (1613, comentário do Apocalipse): fim do mundo em 1911, precedido pelo Anticristo (nascido em 1855, viveria 55 anos e meio).
Kardec articula três argumentos:
a) Argumento histórico — fim do mundo de 1840. “Lembramo-nos que o fim do mundo também tinha sido predito para o ano de 1840; acreditavam com tanta certeza, que era pregado nas igrejas, e o vimos anunciado em certos catecismos de Paris às crianças da primeira comunhão. […] Como o melhor meio de salvar sua alma sempre foi dar dinheiro; despojar-se dos bens deste mundo, que são uma causa de perdição, foram feitos pedidos e provocadas doações com esse objetivo”. A profecia datada serve a interesses temporais e fracassa repetidamente.
b) Argumento teológico — inversão da bondade divina. A narrativa de Holzauzer faz Satã mais poderoso que Deus: a Igreja Católica, depois de um “triunfo de curta duração”, sucumbe definitivamente perante o Anticristo, que destrói os santuários, mata o último papa Pedro, faz milagres equivalentes aos divinos. “Não está aí uma confissão ingênua de fraqueza e de impotência?”
c) Resposta espírita pelo Espírito Jobard (Sociedade de Paris, 28/02/1868, médium Sr. Morin em sonambulismo espiritual): “o fim do mundo está próximo… mas, o fim de que mundo? Será o fim do mundo da superstição, do despotismo, dos abusos mantidos pela ignorância, pela malevolência e pela hipocrisia; será o fim do mundo egoísta e orgulhoso, do pauperismo, de tudo o que é vil e rebaixa o homem […]. Sim, senhores, um período de depuração terrestre termina neste momento; um outro vai começar”. Tese: o fim do mundo é regenerativo, não cataclísmico. Material que ancora a leitura espírita do cap. XVIII de [[wiki/obras/genese|Gênese]] (“Os tempos são chegados”) e da geração nova.
A peça inclui carta de leitor de Boulonnais que confessa: “estava no ponto em que tinha, por mim, resolvido suicidar-me” — graças à fé católica que lhe ensinava que bastaria confessar-se antes de morrer. “Agora, graças ao conhecimento do Espiritismo, semelhantes ideias estão para sempre banidas de meu pensamento”. Aplicação concreta da função preservadora contra o suicídio anunciada na síntese decenal de RE ago/1865.
7. “Concordância dos números e a fatalidade” (julho/1868) — defesa rigorosa do livre-arbítrio
A peça de jul/1868 é a defesa filosófica mais rigorosa do livre-arbítrio em toda a Revista. Articula matemática estatística (jogos de vermelho-preto, dados, antiga loteria francesa de 90 números) e demografia (mortalidade por idade) com o princípio doutrinário:
- Reconhecimento das leis numéricas: “é certo, pois, que os números estão na Natureza e que leis numéricas regem a maior parte dos fenômenos de ordem física”. As chances do acaso “se equilibram com uma surpreendente regularidade”.
- Distinção fatalidade do conjunto / liberdade individual: “a fatalidade é o freio imposto ao homem por uma vontade superior a ele, e mais sábia que ele, em tudo o que não é deixado à sua iniciativa. Mas ela jamais é um entrave ao exercício de seu livre-arbítrio, no que toca às suas ações pessoais”. Imagem dos peixes no rio: “os pequenos remoinhos causados nas águas de um rio, pelos peixes que se agitam, não impedem a massa das águas de seguir o curso forçado que lhes imprime a lei de gravitação”.
- Refutação do dogma materialista: “os materialistas, aqueles mesmos que proclamam o dogma da fatalidade, são os primeiros a dela tirar partido; a constituir-se senhores de sua liberdade […]. Sendo o materialismo a negação do princípio espiritual, é, por isso mesmo, a negação da liberdade”.
- Recusa da culpabilidade da Providência: “se um acontecimento está no destino de um homem, ele realizar-se-á, a despeito de sua vontade, e será sempre para o seu bem, mas as circunstâncias da realização dependem do emprego que ele faça de seu livre-arbítrio”.
Texto-chave para livre-arbitrio e para a recusa de toda ciência da concordância dos números como divinatória.
8. Doutrina de Lao-Tseu (outubro/1868) — primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa
A peça de out/1868 é o primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa não-cristã na Revista (continuidade ampliativa do estudo de Maomé/Islã em RE 1866). Notícia enviada por correspondente em Saigon, na Cochinchina (colônia francesa do Tonquim/Vietnã na época); tradução do sinólogo francês Pauthier.
Conteúdo da exposição:
- Cosmologia do Tas (razão suprema): “As formas materiais do grande poder criador não são senão as emanações do Tas; foi o Tas que produziu os seres materiais existentes”. Dois modos de ser: espiritual (perfeito, origem e destino do homem) e material.
- Hierarquia das leis: “O homem tem a sua lei na Terra; a Terra tem a sua lei no Céu; o céu tem a lei no Tas ou a razão suprema universal; a razão suprema tem a sua lei em si mesma”.
- Doutrina do retorno e da imortalidade: “Cada um deles retorna à sua origem. Retornar à sua origem significa tornar-se em repouso; tornar-se em repouso significa cumprir o seu mandato; cumprir o seu mandato significa tornar-se eterno”.
- Moral universal: “O homem virtuoso, devemos tratá-lo como um homem virtuoso; o homem vicioso devemos igualmente tratá-lo como um homem virtuoso” — Kardec lê como caridade benevolente.
Avaliação de Kardec: “se é certo que ela [a doutrina de Lao-Tseu] nada contém de incompatível com o que admite a razão, por que não seria tão boa quanto tantas outras que dificilmente suportam a discussão? […] os princípios filosóficos do Espiritismo não são, em substância, senão os de Lao-Tseu, não se pode considerar a verdade da Doutrina Espírita como estando moralmente provada, fora dos ensinamentos do Cristo?“. Único reparo: “a leve tendência panteísta da não distinção, ou melhor, da identificação da criatura santificada com o Criador”. Tese aberta: “quem sabe se os pontos de contato existentes entre a sua doutrina e o Espiritismo não será um dia um traço de união para a aliança fraterna das crenças?”
Material para lao-tseu (página criada nesta ingestão).
9. Frente cultural ampla — Aïssaouá, Lavater, Lao-Tseu, judaísmo
1868 é o ano de maior abertura cultural da Revista a horizontes não-cristãos europeus:
- Aïssaouá (RE jan/1868) — seita árabe norte-africana exibida na Exposição Universal de 1867 com fenômenos de auto-mutilação sem dor, ingestão de vidro e brasas, dança da loucura. Primeiro tratamento substantivo de fenomenologia islâmica fora do Magrebe.
- Correspondência de Lavater à Imperatriz Maria da Rússia (RE mar–jun/1868, ciclo em 4 cartas) — caso único na Revista de transmissão epistolar histórica entre Espírito protestante alemão (Johann Caspar Lavater, pastor de Zurique, 1741–1801) e soberana ortodoxa russa (Maria Feodorovna, esposa de Paulo I, 1798).
- Lao-Tseu (RE out/1868) — filosofia chinesa, cosmologia do Tas.
- Pecado original segundo o judaísmo (RE nov/1868) — leitura judaica de Gn 3.
Articulação: a doutrina espírita encontra ecos transversais em todas as tradições humanas — base argumentativa universalista que prepara o horizonte da geracao-nova como regeneração planetária, não regeneração de uma única tradição.
10. “Fotografia do Pensamento” (junho/1868) — antecipação de Obras Póstumas
A peça de jun/1868 introduz a tese da possibilidade de captação fotográfica do pensamento. Continuidade da frente fluídica de RE 1866 (“Introdução ao estudo dos fluidos espirituais”, mar/1866) → cap. XIV de [[wiki/obras/genese|Gênese]]. Material que será desenvolvido como ensaio dedicado em [[wiki/obras/obras-postumas|Obras Póstumas]] (1ª parte). Ver fotografia-do-pensamento.
A SPEE em 1868 — preparação institucional do Comitê Central
No 11º ano social, a SPEE prepara a transição para a estrutura da Constituição Transitória:
- Sede definitiva na rue Sainte-Anne, 59.
- Sessão anual comemorativa dos mortos em 1º/11/1868 — modelo permanente fixado em RE nov/1864 (sessão fúnebre coletiva).
- Subscrições anteriores (caixa do Espiritismo) funcionando — relatório de 1865 republicado integralmente como capítulo II da Constituição Transitória.
- Publicação de A Gênese em janeiro de 1868 — quinto livro do Pentateuco distribuído pela rede da SPEE.
- Preparação do legado — a Constituição Transitória anuncia projetos de fundação (casa de retiro, dispensário, biblioteca, museu), uma parte dos quais Kardec não viverá para realizar. Trabalho que continuará na Société Anonyme du Spiritisme dirigida por sua viúva Amélie Boudet após 31/03/1869.
- Continuidade da rede em Lyon, Bordeaux, Marselha, Antuérpia, Bruxelas, Bélgica, Espanha (Cádiz), Brasil, e nova fronteira em Saigon (Cochinchina) com correspondente local que envia o material sobre Lao-Tseu (out/1868).
Comunicantes recorrentes
- jesus — referência moral constante; tema central via A Gênese e o discurso da Sessão Comemorativa dos Mortos.
- São Luís — guia e presidente espiritual da SPEE; comunicação central sobre A Gênese (RE fev/1868, médium Desliens, 18/12/1867).
- Jobard — comunicação pós-morte central sobre o “fim do mundo” (RE abr/1868, Sociedade de Paris, 28/02/1868, médium Morin).
- Jean-Jacques Rousseau — comunicação na Sessão Comemorativa dos Mortos (1º/11/1868, médium Morin) sobre o egoísmo do isolamento social.
- Guillaumin — comunicação na Sessão Comemorativa dos Mortos (médium Leymarie) — economista incrédulo reconvertido.
- Sra. Victor Hugo — aforismo na Sessão Comemorativa (dois meses após sua desencarnação em 28/08/1868).
- Lavater (Johann Caspar) — quatro cartas históricas à Imperatriz Maria da Rússia, redescobertas e publicadas em mar–jun/1868.
- Biron / “Flageolet” — Espírito mistificador (RE mar/1868), violinista popular morto.
- Espírito Protor — referência implícita pela continuidade do estudo de Madagascar.
- Padre D… — profecia “Os literatos serão os vossos mais poderosos auxiliares” citada no balanço retrospectivo de jan/1868 como cumprida durante 1867.
Conceitos tratados
- Estatuto e organização do Espiritismo:
- constituicao-do-espiritismo (texto institucional central de dez/1868)
- comunhao-de-pensamentos (matriz fluídica das reuniões coletivas, dez/1868)
- Aprofundados:
- livre-arbitrio (“Concordância dos números e a fatalidade”, jul/1868)
- maravilhoso-e-sobrenatural (recusa de profecias apocalípticas datadas, abr/1868; recusa do “demônio único agente”, jan/1868 contra Poussin)
- geracao-nova (“O fim do mundo em 1911” como fim regenerativo)
- mediunidade-de-cura (“Ensaio teórico das curas instantâneas”, mar/1868)
- identidade-dos-espiritos (Lavater à Imperatriz, mar–jun/1868; Flageolet, mar/1868)
- escala-espirita (Espíritos mistificadores; “a idade do corpo não é absolutamente um indício da idade do Espírito”)
- obsessao (Aïssaouá jan/1868; Epidemia da Ilha Maurícia nov/1868)
- Antecipados / inaugurados:
- fotografia-do-pensamento (jun/1868, antecipação do ensaio de Obras Póstumas)
- Cosmologia e ciência:
- pluralidade-dos-mundos-habitados (“A alma da Terra”, set/1868)
- fluidos (todo o volume; “Ensaio teórico das curas instantâneas”)
- Moral e prática:
- História da doutrina:
- auto-de-fe-de-barcelona (continuidade Cádiz, abr/1868)
Personalidades citadas
- allan-kardec — diretor; discurso da Sessão Comemorativa dos Mortos (1º/11/1868); autor da Constituição Transitória do Espiritismo (dez/1868).
- jesus — referência moral constante.
- victor-hugo — acompanhamento até a fronteira do cortejo fúnebre da Sra. Victor Hugo (set/1868).
- Sra. Victor Hugo (Adèle Foucher) — falecimento em Bruxelas em 28/08/1868; exéquias em Villèquiers em 30/08/1868; comunicação aforística na Sessão Comemorativa de 1º/11/1868.
- Paul Meurice — discurso fúnebre nas exéquias da Sra. Hugo (RE out/1868).
- camille-flammarion — referência indireta pelo balanço de 1867 (publicação de Dieu dans la Nature).
- Henri Jacob — curador militar (zuavo); fenômeno marcante de 1867 referido no balanço de jan/1868; “Os pensamentos do zuavo Jacob” (mar/1868).
- Abade J. Clovis Poussin — professor no Seminário de Nice; autor de Le Spiritisme devant l’histoire (1867), refutado em RE jan/1868.
- Joseph Gustave Leserteur — autor da brochura Le fin du monde en 1911 (Lyon), refutada em RE abr/1868.
- Holzauzer (Bartholomäus Holzhauser) — profeta alemão (1613–1658) cujo comentário do Apocalipse fundamenta a profecia de 1911.
- Conselheiro de Estado Genteur — autor do relatório ao Senado (jun/1868) que cunha o termo partido espírita.
- Sr. Désiré Nisard — senador citado no debate de jun/1868; ex-aluno da Escola Normal, ironizado por Le Siècle como exemplo de inconsequência liberal.
- Anatole de la Forge — autor do artigo de Le Siècle (18/06/1868) sobre o partido espírita.
- Liévin — autor do artigo de La Liberté (13/06/1868).
- Eugène Bonnemère — autor de Le Roman de l’Avenir (1867); colaborador do jovem médium bretão (RE jun/1867 e fev/1868).
- Élie Sauvage — autor de Mirette (1867).
- Camille Flammarion — autor de Dieu dans la Nature (1867).
- Michel Bonnamy — juiz de instrução, autor de La Raison du Spiritisme (1867) — adesão pública de magistrado; continuidade da frente Jaubert (RE 1866).
- Johann Caspar Lavater (1741–1801) — pastor protestante de Zurique; correspondência com a Imperatriz Maria Feodorovna em 1798, publicada inédita em RE mar–jun/1868.
- Imperatriz Maria Feodorovna (1759–1828) — esposa do czar Paulo I da Rússia; destinatária da correspondência de Lavater.
- Lao-Tseu — filósofo chinês do século VI a.C.; doutrina do Tas exposta em RE out/1868.
- G. Pauthier — sinólogo francês, tradutor das obras de Lao-Tseu utilizadas por Kardec.
- Sr. Florent Loth (de Amiens) — autor do Resumo da doutrina espírita, resenhado em RE fev/1868.
- Biron (“Flageolet”) — Espírito mistificador, violinista popular de Saumur (RE mar/1868).
- Dr. E. Champneuf (Maine-et-Loire) — relator do caso de Flageolet.
- Sr. Morin — médium da comunicação de Jobard (RE abr/1868) e de Rousseau (RE dez/1868).
- Sr. Desliens — médium da comunicação de São Luís sobre A Gênese (RE fev/1868).
- Sr. Leymarie — médium da comunicação de Guillaumin na Sessão Comemorativa dos Mortos (1º/11/1868).
- Guillaumin — economista francês desencarnado; referência ao círculo de discípulos da Rua Richelieu mencionada na sua comunicação.
- Mons. Frayssinous (Bispo de Hermópolis) — citado na refutação de Poussin: “um demônio que procurasse destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude, seria um demônio esquisito”.
Divergências
Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Pontos a registrar sem flag de divergência:
- Recusa categórica do “demônio único agente” (RE jan/1868, refutação de Poussin) — continuidade da frente anti-eclesiástica de RE jun/1864 (Bispo de Langres) e ago/1865 (Padre Dégenettes). Argumento permanente.
- Recusa de profecias apocalípticas datadas (RE abr/1868) — política metodológica fundamental: o fim do mundo é regenerativo, não cataclísmico, e nunca tem data fixa calculável.
- Estatuto canônico do Espiritismo como religião filosófica, não como culto (RE dez/1868, discurso da Sessão Comemorativa dos Mortos). Formulação madura que dissolve o aparente paradoxo entre as fórmulas correntes “o Espiritismo não é uma religião” e o reconhecimento do estatuto religioso filosófico — ambas verdadeiras em sentidos diferentes. Posição decisiva da codificação sobre o tema.
- Recusa da categorização político-partidária do Espiritismo (RE jul–ago/1868, “O partido espírita”) — política institucional permanente.
- Recusa do chefe individual / opção pelo Comitê Central (RE dez/1868, Constituição Transitória, cap. IV–V) — política institucional permanente; advertência contra messias auto-proclamados.
- Pluralidade dos messias e identificação inconsciente (RE fev–mar/1868) — recusa da forma teatral cristológica; vigésimo século como o século dos messias. Material que merece tratamento doutrinal específico.
Sem wiki/divergencias/* novos.
Fontes
- KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1868. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1868.
- Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1868. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
- Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1868. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
- Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1868.
- Edição local: 1868 (12 fascículos mensais integrais baixados da Kardecpédia em 2026-04-28).