Perturbação
Estado de entorpecimento que paralisa momentaneamente as faculdades da alma no instante da morte, funcionando como transição entre a vida corpórea e a vida espiritual. Sua duração e intensidade variam conforme o adiantamento moral do Espírito.
Ensino de Kardec
Definição e natureza do fenômeno
Na passagem da vida corpórea à vida espiritual, a alma experimenta um entorpecimento que paralisa suas faculdades e neutraliza, ao menos parcialmente, as sensações. Kardec compara esse estado a uma catalepsia:
“Nesse momento, a alma experimenta um entorpecimento que paralisa momentaneamente suas faculdades e neutraliza, ao menos parcialmente, as sensações; ela fica, por assim dizer, em estado cataléptico, de sorte que quase nunca é testemunha consciente do último suspiro.” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 6)
À medida que a perturbação se dissipa, a alma se encontra “na situação de um homem que sai de um sono profundo”: as ideias são confusas e vagas, a vista clareia progressivamente, a memória retorna. O despertar, porém, é muito diferente de indivíduo para indivíduo — calmo e delicioso para uns, cheio de terror e ansiedade para outros (C&I, 2ª parte, cap. I, item 6).
O desprendimento do perispírito
A separação da alma e do corpo opera-se pela ruptura gradual do laço fluídico que os une. O perispírito se liberta pouco a pouco de todos os órgãos, e a separação só é completa quando não resta nenhum átomo do perispírito ligado ao corpo. A sensação dolorosa depende da soma dos pontos de contato existentes entre corpo e perispírito, e da dificuldade do desprendimento (C&I, 2ª parte, cap. I, item 4).
Quatro casos extremos
Kardec estabelece quatro situações-limite, entre as quais há inúmeras nuances (C&I, 2ª parte, cap. I, item 5):
- Desprendimento completo no momento da extinção da vida orgânica — a alma não sente absolutamente nada.
- Coesão máxima entre corpo e perispírito — produz-se uma espécie de dilaceramento que reage dolorosamente sobre a alma.
- Coesão fraca — a separação é fácil e se opera sem abalo.
- Pontos de contato residuais após a cessação completa da vida orgânica — a alma pode sentir os efeitos da decomposição do corpo até que o laço seja totalmente rompido.
O estado moral como causa principal
“O estado moral da alma é a causa principal que influi sobre a maior ou menor facilidade do desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito é proporcional ao apego do Espírito à matéria.” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 8)
A afinidade atinge seu máximo naquele cujas preocupações se concentram exclusivamente na vida e nos gozos materiais; é quase inexistente naquele cuja alma purificada se identificou por antecipação com a vida espiritual. Depende de cada um, portanto, tornar essa passagem mais ou menos fácil — agradável ou dolorosa (C&I, 2ª parte, cap. I, item 8).
Morte natural vs. morte violenta
Na morte natural (por doença ou velhice), o desprendimento é gradual. No Espírito desmaterializado, pode estar quase completo antes da morte real: o corpo ainda vive a vida orgânica, mas a alma já entrou na vida espiritual. A perturbação é quase nula — “não é mais do que um momento de sono tranquilo” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 9).
No Espírito materialista e sensual, ao contrário, tudo contribui para apertar os laços; o desprendimento exige esforços contínuos, e as convulsões da agonia são indício da luta travada (C&I, 2ª parte, cap. I, item 8).
Na morte violenta, nenhuma desagregação parcial preparou a separação. A vida orgânica, em plena força, é subitamente interrompida. O Espírito fica atordoado, acredita ainda estar vivo, e essa ilusão pode durar desde breves instantes até anos, conforme o grau de adiantamento moral. No caso do suicídio, a situação é especialmente penosa: “O corpo, ligado ao perispírito por todas as suas fibras, todas as convulsões do corpo repercutem na alma” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 11).
Duração da perturbação
A duração é indeterminada: “varia de algumas horas a alguns anos” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 6). A rapidez do despertar é proporcional ao grau de desmaterialização alcançado durante a vida terrestre. O Espiritismo, através da prece e da evocação conduzida com sabedoria, pode abreviar a perturbação e ajudar o Espírito a se reconhecer mais cedo (C&I, 2ª parte, cap. I, item 15).
Síntese de Kardec
“O Espírito sofre tanto mais quanto o desprendimento do perispírito é mais lento; a prontidão do desprendimento é proporcional ao grau de adiantamento moral do Espírito; para o Espírito desmaterializado cuja consciência é pura, a morte é um sono de alguns instantes, isento de todo sofrimento, e cujo despertar é cheio de suavidade.” (C&I, 2ª parte, cap. I, item 13)
Aplicação prática
O estudo da perturbação é de grande relevância para o trabalho mediúnico e para a assistência espiritual aos recém-desencarnados. Compreender que o Espírito pode permanecer confuso por longo tempo após a morte fundamenta a prática da prece em favor dos que partem, a evocação respeitosa com palavras de encorajamento, e o passe nos trabalhos de desobsessão — todos meios de ajudar o Espírito a reconhecer sua nova situação.
Para palestras e estudos, o tema é particularmente útil para desfazer dois equívocos comuns: o de que a morte é um corte instantâneo e definitivo, e o de que o sofrimento pós-morte é arbitrário. Kardec demonstra que o sofrimento é proporcional ao apego à matéria — portanto, está nas mãos de cada um preparar-se para uma transição serena, cultivando desde agora a vida moral e o desprendimento das coisas terrenas.
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Fontes
- Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, cap. I — “A passagem”. FEB.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. q. 155, 163-165. FEB.
- Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. 2ª parte, cap. III. FEB.