Como avaliar a veracidade de mensagens psicografadas

Pergunta motivadora

Que critérios a codificação kardeciana oferece para distinguir uma comunicação espírita autêntica de uma mensagem apócrifa, e qual o papel da escala espírita nessa análise?

1. Premissa: a diversidade das comunicações reflete a diversidade dos Espíritos

Kardec classifica as comunicações em quatro categorias — grosseiras, frívolas, sérias e instrutivas — e vincula cada uma diretamente ao grau do Espírito comunicante na escala-espirita:

“As comunicações hão de refletir a elevação, ou a baixeza de suas ideias, o saber e a ignorância deles, seus vícios e suas virtudes; numa palavra, elas não se hão de assemelhar mais do que as dos homens, desde os selvagens até o mais ilustrado europeu.” (LM, 2ª parte, cap. X, item 133)

Portanto, nem toda mensagem psicografada tem o mesmo valor. A veracidade depende, antes de tudo, de quem comunica — e a escala espírita fornece a régua para essa avaliação.

2. O problema da identidade

A questão da identidade dos Espíritos é “uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 255). Kardec reconhece que não existe prova material absoluta de identidade, porque:

Entretanto, Kardec sustenta que a identidade absoluta é, em muitos casos, questão secundária — o que importa é a qualidade moral e intelectual da comunicação:

“Desde que o Espírito só diz coisas aproveitáveis, pouco importa o nome sob o qual as diga.” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 255)

A exceção está nas comunicações íntimas (com entes queridos falecidos), em que a identidade pessoal tem importância real e pode ser verificada por particularidades espontâneas — hábitos, linguagem familiar, fatos desconhecidos dos assistentes cuja exatidão se pode confirmar depois (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 258).

3. O critério fundamental: a linguagem moral e intelectual

Kardec estabelece como regra invariável e sem exceção:

“A linguagem dos Espíritos está sempre em relação com o grau de elevação a que já tenham chegado.” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 263)

A analogia é clara: julgar um Espírito pela comunicação é como julgar um desconhecido pela carta que escreve — “pelo estilo, pelas ideias, por uma imensidade de indícios” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 263).

3.1 Sinais de elevação (bons Espíritos)

Com base nos 26 critérios de Kardec (LM, 2ª parte, cap. XXIV, itens 267):

SinalReferência
Linguagem digna, nobre, simples e modesta — sem trivialidade, vaidade ou jactânciaitem 267, 4.º
Bondade e afabilidade; crítica dos erros com moderação, sem felitem 264
Concisão: “a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras”item 267, 9.º
Coerência: a linguagem é sempre idêntica quanto ao fundo, em qualquer tempo e lugaritem 267, 6.º
Aconselham sem impor; se não são ouvidos, retiram-seitem 267, 10.º
Nunca lisonjeiam; aprovam o bem com reservaitem 267, 11.º
Não predizem o futuro com datas determinadasitem 267, 8.º
Prescrevem apenas o que tem fim sério e útilitem 267, 15.º
Prudente reserva: repugna-lhes desvendar o mal alheioitem 267, 16.º
Só prescrevem o que se conforma com “a pura caridade evangélica”item 267, 17.º
Só aconselham o racional; nada que se afaste do bom senso ou das leis naturaisitem 267, 18.º

3.2 Sinais de inferioridade (Espíritos imperfeitos ou mistificadores)

SinalReferência
Linguagem pretensiosa, empolada, enfática — que oculta o vazio das ideiasitem 267, 9.º
Contradição com o caráter da personagem cujo nome usurpamitem 267, 6.º
Prolixidade e obscuridade à força de quererem parecer profundositem 267, 9.º
Imperativos: dão ordens, querem ser obedecidos, exigem crença cegaitem 267, 10.º
Lisonjas exageradas; estimulam orgulho e vaidadeitem 267, 11.º
Predições com data determinada e promessas de riquezas ou tesourositem 267, 8.º; cap. XXVII, item 303, nota
Heresias científicas notórias; princípios contrários ao bom sensoitem 267, 7.º
Nomes singulares/ridículos ou, ao contrário, nomes extremamente venerados usados com facilidade excessivaitens 267, 13.º e 14.º
Ação violenta sobre o médium: movimentos bruscos, agitação febrilitem 267, 19.º
Conselhos pérfidos; cizânia; insinuações contra quem possa desmascará-lositem 267, 20.º

4. Comunicações apócrifas: exemplos do próprio Kardec

O capítulo XXXI do LM (Dissertações espíritas — Comunicações apócrifas) é um exercício prático de análise crítica. Kardec apresenta comunicações recebidas sob nomes venerados e as desmonta:

  • Falso “Vicente de Paulo” (comunicação XXIX): afirma que há mais lugares ignorados do que conhecidos na Terra e anuncia a descoberta de um continente. Kardec diagnostica: “dizer que essas terras são povoadas e que Deus as conserva ocultas dos homens […] é acreditar demasiado na confiança cega daqueles a quem semelhantes absurdos são propinados” (LM, 2ª parte, cap. XXXI, nota à comunicação XXIX).

  • Verdadeiro “Vicente de Paulo” (comunicação XXX): no mesmo círculo, uma segunda comunicação sob o mesmo nome apresenta “ideias justas, profundas, sensatas” e pode ser atribuída sem receio ao Espírito (LM, 2ª parte, cap. XXXI, nota à comunicação XXX).

  • Falso “Napoleão” (comunicação XXXI): linguagem verbosa e burlesca, incompatível com o “estilo breve e conciso” que Napoleão tinha em vida. Kardec conclui: “talvez seja do Espírito de algum soldado que se chamava Napoleão” (LM, 2ª parte, cap. XXXI, nota à comunicação XXXI).

  • Falso “Jesus” (comunicações XXXIII): linguagem “pretensiosa, enfática e empolada” — “teve o Cristo alguma vez essa linguagem?” Kardec compara com comunicações autênticas atribuídas a Jesus e mostra “de que lado está o cunho da autenticidade” (LM, 2ª parte, cap. XXXI, nota à comunicação XXXIII).

  • Falso “Bossuet” (comunicação XXXIV): comunicação em si boa, com “profundas ideias filosóficas”, mas São Luís, consultado, revela que foi escrita por outro Espírito usando o nome do bispo para ser mais facilmente aceito. O Espírito confessa: “Eu desejava escrever alguma coisa, a fim de me fazer lembrado dos homens” (LM, 2ª parte, cap. XXXI, nota à comunicação XXXIV).

Padrão comum: todas as apócrifas vinham do mesmo círculo, por comunicações espontâneas não verificadas, e “nada lhe perguntavam e aceitavam sem verificação e de olhos fechados tudo o que ele dizia” (LM, 2ª parte, cap. XXXI, nota à comunicação XXXIII). Kardec conclui que a falta de exame crítico é o convite ao embuste.

5. Fatores agravantes: o papel do médium e do meio

A análise não se restringe ao Espírito comunicante. Kardec mostra que o médium e o ambiente influenciam a qualidade da comunicação:

5.1 Influência do Espírito pessoal do médium

O Espírito do médium é sempre um “intérprete” — e pode alterar as respostas, “assimilá-las às suas próprias ideias e a seus pendores” (LM, 2ª parte, cap. XIX, item 223, 7ª pergunta). Os Espíritos comunicantes “procuram o intérprete que mais simpatize com eles” (LM, 2ª parte, cap. XIX, item 223, 8ª pergunta). Há, portanto, uma afinidade de grau entre o médium e os Espíritos que atrai.

5.2 Influência moral do médium

A elevação moral do médium é fator determinante: quanto mais elevado moralmente, melhor o filtro contra Espíritos inferiores (LM, 2ª parte, cap. XX).

5.3 Influência do meio

O ambiente em que se pratica a mediunidade — a seriedade dos participantes, a intenção da reunião — atrai Espíritos da mesma natureza (LM, 2ª parte, cap. XXI). Reuniões feitas por curiosidade ou divertimento atraem Espíritos levianos.

6. Obsessão e fascinação: quando o filtro falha

A escala-espirita ajuda a entender os três graus de influência nociva:

GrauMecanismoRisco
Obsessão simplesEspírito se impõe ao médium, impede comunicação com outros; o médium reconhece a feloniaDesagradável, raramente engana (LM, 2ª parte, cap. XXIII, item 238)
FascinaçãoEspírito produz ilusão direta no pensamento do médium; paralisa-lhe o raciocínio; inspira confiança cegaGravíssimo — “nem os homens de mais espírito estão isentos” (LM, 2ª parte, cap. XXIII, item 239)
SubjugaçãoConstrangimento que pode ser moral ou corporal; domínio parcial ou totalPerda temporária de autonomia (LM, 2ª parte, cap. XXIII, item 240)

Na fascinação, o médium torna-se incapaz de discernir o embuste; “o que o fascinador mais teme são as pessoas que veem claro” (LM, 2ª parte, cap. XXIII, item 239). Por isso Kardec insiste que a análise nunca deve ser feita apenas pelo médium, mas pelo grupo.

7. Método prático de verificação (síntese)

A partir do ensino de Kardec, pode-se propor o seguinte roteiro de análise:

  1. Ler a comunicação sem prevenção — examinar o conjunto, não frases isoladas.
  2. Verificar coerência interna — há contradições? O estilo é homogêneo?
  3. Comparar com o caráter conhecido do Espírito — se assinada por nome célebre, a linguagem e as ideias são compatíveis com o que se sabe da personagem?
  4. Aplicar os 26 critérios do item 267 — checar um a um os sinais de elevação ou inferioridade.
  5. Submeter ao crivo da razão e do bom senso — “não há outro critério, senão o bom senso, para se aquilatar do valor dos Espíritos” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 267, 1.º).
  6. Confrontar com a doutrina estabelecida — toda comunicação que contradiga os princípios fundamentais da codificação ou “as leis imutáveis da natureza” é suspeita (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 267, 18.º).
  7. Verificar as circunstâncias — qual o perfil moral do médium? Qual a seriedade do ambiente? Houve verificação ou aceitação cega?
  8. Buscar o “Controle Universal do Ensino dos Espíritos” (CUEE) — a concordância de comunicações obtidas por médiuns diferentes, em lugares diferentes, é a garantia máxima de autenticidade (LE, Introdução, item XIII).

8. Conclusão

A codificação não exige credulidade nem incentiva ceticismo absoluto. Exige discernimento metódico. O próprio Kardec resume:

“Em se submetendo todas as comunicações a um exame escrupuloso, em se lhes perscrutando e analisando o pensamento e as expressões […], rejeitando-se, sem hesitação, tudo o que peque contra a lógica e o bom senso, tudo o que desminta o caráter do Espírito que se supõe ser o que se está manifestando, leva-se o desânimo aos Espíritos mentirosos, que acabam por se retirar.” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 266)

E São Luís complementa:

“Qualquer que seja a confiança legítima que vos inspirem os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, uma recomendação há que nunca será demais repetir […]: é a de pesar e meditar, é a de submeter ao controle da razão mais severa todas as comunicações que receberdes.” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 266)

A escala espírita não é mera classificação teórica — é ferramenta de análise prática. Conhecê-la é condição para exercer o discernimento que Kardec exige de todo espírita sério.

Páginas referenciadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Caps. X (itens 133–137), XIX (item 223), XX, XXI, XXIII (itens 237–239), XXIV (itens 255–267), XXVII (itens 297–303), XXXI (comunicações XXIX–XXXIV).
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Introdução, item XIII; q. 100–113.