Henri-Dominique Lacordaire
Jean-Baptiste Henri Lacordaire (1802–1861), padre dominicano francês, restaurador da Ordem dos Pregadores na França após a supressão revolucionária. Pregador célebre da Catedral de Notre-Dame de Paris (Conferências de Notre-Dame). Caso paradigmático no volume de 1867: carta privada de 1853 reconhecendo a realidade do fenômeno mediúnico e comunicação pós-morte na Sociedade Espírita de Paris em janeiro de 1867 pedindo a publicação dessa carta.
Identificação
- Nome: Jean-Baptiste Henri Lacordaire (em religião: Henri-Dominique).
- Vida: 12 de maio de 1802, Recey-sur-Ource (Côte-d’Or) — 21 de novembro de 1861, Sorèze (Tarn).
- Função: padre da Ordem dos Pregadores (dominicanos); restaurador da Ordem em França (1839); pregador da Catedral de Notre-Dame; membro da Académie Française (1860).
- Posição na hierarquia kardequiana: autoridade católica recuperada como testemunha favorável ao Espiritismo do interior do clero, ao lado de Mons. Freyssinous (bispo de Hermópolis) e do Padre Charles Dégenettes.
Papel
Lacordaire é mobilizado por Kardec em duas frentes complementares no volume de 1867 (RE fev/1867, “Lacordaire e as mesas girantes”):
(a) Carta a Mme. Swetchine (29 de junho de 1853, Flavigny). Publicada em 1865 na correspondência póstuma de Lacordaire, a carta revela que o dominicano havia experimentado pessoalmente o fenômeno das mesas falantes e o reconhecia como autêntico:
“Vistes girar e ouvistes falar das mesas? — Desdenhei vê-las girar, como uma coisa muito simples, mas ouvi e fiz que elas falassem. Elas me disseram coisas muito admiráveis sobre o passado e sobre o presente. Por mais extraordinário que isto seja, é para um cristão que acredita nos Espíritos um fenômeno muito vulgar e muito pobre. Em todos os tempos houve modos mais ou menos bizarros para se comunicar com os Espíritos.” (Lacordaire a Mme. Swetchine, 29/06/1853)
A carta é marcante por três razões: (1) Lacordaire viu o fenômeno em primeira pessoa e o praticou; (2) ele o aceita como vulgar para “um cristão que acredita nos Espíritos” — ou seja, como compatível com a fé católica; (3) atribui à publicidade dos fenômenos uma função providencial: “talvez Deus queira harmonizar o desenvolvimento das forças espirituais ao desenvolvimento das forças materiais, para que o homem não esqueça, em presença das maravilhas da mecânica, que há dois mundos inseridos um no outro: o mundo dos corpos e o mundo dos Espíritos”.
(b) Comunicação pós-morte na SPEE (18 de janeiro de 1867, médium Sr. Morin em sonambulismo espontâneo). O Espírito de Lacordaire manifesta-se na Sociedade e descreve sua continuidade no plano espiritual:
“Vi-o pregando com a mesma eloquência, com o mesmo sentimento de convicção íntima que quando vivo, o que não teria ousado pregar abertamente do púlpito, mas aquilo a que conduziam os seus ensinamentos. […] Ele pede uma coisa, não por orgulho, por um interesse pessoal qualquer, mas no interesse de todos e para o bem da Doutrina: a inserção na Revista do que ele escreveu há treze anos. Se peço tal inserção, diz ele, é por dois motivos: o primeiro porque mostrareis ao mundo que, como dizeis, pode-se não ser tolo e crer nos Espíritos, e o segundo é que a publicação dessa primeira citação permitirá que se descubram em meus escritos outras passagens que serão consideradas como concordes com os princípios do Espiritismo.” (RE, fev/1867)
Kardec aproveita a peça para fixar o argumento sociológico: “como ele é tido, geralmente, por todo mundo, como uma das altas inteligências deste século, parece difícil colocá-lo entre os loucos, depois de havê-lo aplaudido como homem de grande senso e de progresso. Pode-se, portanto, ter senso comum e crer nos Espíritos.”
Obras associadas
- Correspondência com Mme. Swetchine (publicada 1865, Paris) — fonte da carta de 29/06/1853 explorada na Revista Espírita.
- Conferências de Notre-Dame de Paris — pregação publicada em vários volumes; obra-mãe do prestígio de Lacordaire no mundo católico francês.
Citações relevantes
- “Lacordaire e as mesas girantes”, RE fev/1867 — carta + comunicação pós-morte.
- Soirées de Saint-Pétersbourg de Joseph de Maistre (1821) — antecedente da postura de “ortodoxia aberta” também recuperada em RE abr/1867.
Páginas relacionadas
- maravilhoso-e-sobrenatural — Lacordaire reconhece os fenômenos como naturais e providenciais, não como milagrosos no sentido vulgar.
- mediunidade — caso de magnetização espontânea sobre o médium Sr. Morin (sonambulismo).
- jesus — Lacordaire como pregador moderno do Cristo cuja palavra Kardec aproxima do Espiritismo.
- revista-espirita-1867 — fascículo de fevereiro.
Fontes
- KARDEC, Allan. “Lacordaire e as mesas girantes”, Revue Spirite, fevereiro/1867. Paris: Bureaux de la Revue Spirite.
- LACORDAIRE, H.-D. Correspondance avec Mme. Swetchine. Paris, 1865.
- Edição local: 02-fevereiro.